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sexta-feira, 27 de maio de 2016

Ultra Trilhos dos Abutres - 30 Janeiro 2016

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Sim, estou a publicar este post quase 4 meses depois da prova. Até para os meus parâmetros é muito tempo. A verdade é que já tinha grande parte deste texto escrito à algum tempo, mas não me apeteceu publicar. Queria fixar esta memória com um último paragrafo de esperança e optimismo. E este fim de semana, no regresso aos trilhos em Sintra, consegui finalmente escrever esse final...
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Os Abutres não querem, definitivamente,nada comigo. Mais um ano, mais uma prova, mais um DNF...

Terá sido a prova que comecei com mais receio, medo até. Depois da experiência do ano passado, tudo me acagaçava, e, ainda não estando completamente recuperado dos entorses crónicos do pé esquerdo, o receio de ficar pelo caminho era bem fundado. Mas nenhum dos cenários de tragédia e horror que pintei nos dias anteriores me poderia preparar para o que me aconteceu naquela fatídica prova.
A foto que já é um clássico em Miranda do Corvo...
A coisa até começou bem. A chuva e mau tempo deram uma trégua e seria quase impossível ter melhores condições meteorológicas. Saímos de véspera, como o ano passado, e ainda deu para irmos comer uma chanfana no restaurante do costume. Parecia que Monsanto se tinha mudado para Miranda do Corvo, tantas eram as caras conhecidas. A excitação era tamanha que desta vez a noite no solo duro foi quase em branco, mas às 8 horas em ponto estávamos prontos para mais uma aventura. No meu caso, micro aventura.

É curioso como podemos passar dias, semanas até meses sem que nos aconteça nada que verdadeiramente mereça registo na nossa memória. E depois, no espaço de um segundo tudo pareça que vai desabar em cima nas nossas cabeças.
Ainda no inicio. Como sei? Ainda estou a correr...
Comecei a prova como no Vicentino, sem me preocupar em seguir ninguém e com super cuidado onde metia os pés. Quis o destino que por acaso não tenha andado muito longe de alguns dos elementos da pandilha. E foi o que me valeu quando aos 30 minutos de prova e ao tocar do 5km, cai. No exacto momento em que bato no chão sei que a minha prova acabou ali, e as primeiras lágrimas são pela frustração de mais uma vez ir ficar pelo caminho, as seguintes já são mais físicas...

As quedas são geralmente estúpidas, mas esta foi particularmente idiota. Ainda quase dentro de Miranda, num acesso de cimento algo inclinado a umas garagens, sinto alguém a escorregar nas minhas costas, olho para trás sem parar e quando estou  com o corpo torcido escorregam-me ambos os pés e caio completamente de lado sobre o braço direito e a testa.
Segundos após a queda já com o Miguel a dar os primeiros socorros.
Não me lembro de exactamente tudo o que se passou a seguir, mas lembro-me de, ao me ajudarem a endireitar, o braço ficar pendido e ter aquela horrível sensação de na nossa cabeça o braço estar numa determinada posição e quando olhamos está completamente noutra... E claro, depois sentir o osso a mexer dentro do bicipede...

Felizmente tínhamos acabado de passar por um jipe da organização e, com a ajuda preciosa do Miguel Serradas, lá fizemos os 400m em sentido contrário. Aqueles metros terão sido das coisas mais angustiantes que alguma fiz em provas. Entre as dores, a interiorização que a prova tinha acabado e o passar em sentido contrário por centenas de atletas... Mais uma vez valeu o Miguel que qual GNR num local de acidente, exortava o pessoal seguir: "Tá tudo bem, nada aqui para ver."

Entregue ao pessoal da organização lá convenci o Miguel a continuar, e foi com grande alegria que ao final do dia fiquei a saber que tinha terminado. Fui rapidamente transportado para o Hospital de Coimbra e depois de algumas situações caricatas lá tive o diagnóstico, fractura do úmero. Quando dei entrada na urgência não devem ter acreditado que tinha o braço partido e devido ao corte no sobreolho mandaram-me para a cirurgia estética. Depois do que na altura me pareceu uma eternidade,  fui atendido por uma estagiária, que, após estar 5 minutos a olhar para mim sem saber muito bem o que fazer decide auscultar-me. Os meus gritos de "PODE CORTAR! PODE CORTAR" quando ela me tentava despir o corta-vento devem ter chamado a atenção de um médico mais sénior que de imediato mandou darem-me uma injecção para as dores e levar-me para o raio-x. No raio-x, as técnicas ficaram muito preocupadas com uma massa muito densa que tinha no peito... Nota, quando forem tirar raios-x lembrem-se de tirar a banda cardíaca... Quando finalmente chego à ortopedia e começam a engessar-me o braço fico aliviado, até me explicarem que devido à localização da fractura terei de ser operado e que o gesso é só para me imobilizar.
Chamemos-lhe "Nu com gesso e calções de compressão"
Mas a minha "ultra" ainda estava a começar. Foram precisas mais de 12 horas, 3 hospitais e outras tantas ambulâncias para finalmente chegar ao local onde, 3 dias depois, viria a ser operado. E digo já, que passar um dia à espera, deprimido, com dores, em tronco nu, vestido apenas com calções de compressão e sapatilhas enlameadas nos corredores de hospitais testa a paciência de qualquer um.

A operação correu bem e devo ter saído com mais juízo pois ganhei 12 novos parafusos, para além de uma cicatriz sexy de 30cm. Nunca tinha estado hospitalizado mas a verdade é que fui muito bem tratado no Hospital de Sant'ana na Parede.
Não, não tenho uma centopeia agarrada ao osso, é mesmo uma placa e 12 parafusos!
Os últimos meses têm sido de recuperação e embora só tenha estado "parado" 6 semanas foi o suficiente para perder completamente a forma. Só para terem uma noção, nessas 6 semanas, sem praticamente sair de casa e a comer como se tivesse uma dispensa na divisão ao lado, perdi 4kg... Os pouquinhos músculos que tinha evaporaram-se. A primeira corrida que dei pensei seriamente que o coração me ia saltar do peito, a correr a mais de 5min/km, no passeio marítimo...

Este reset forçado acabou também por proporcionar um descanso à cabeça. A verdade é que desde que comecei a correr, em 2010, nunca tinha estado parado mais que alguns dias. Vou dizer uma blasfémia, mas tem sabido tão bem ficar na cama ao Domingo de manhã... (pelo menos até a Mafalda acordar às 8h da manhã, é a loucura). Durante este tempo fiquei-me pelo alcatrão, aumentado muito progressivamente o ritmo mas muito raramente saindo da zona de conforto.

A semana passada fui à última consulta de acompanhamento da cirurgia e o médico deu-me "alta"! Ok, o osso está consolidado mas a recuperação total irá levar meses, pelo que tenho de ter juízo. Para comemorar fui para Sintra e nem me custou nada levantar às 6:00 de um Domingo. Foi muito bom voltar aos trilhos com os amigos. Claro que eles não tiveram este tempo a malandrar e após estar 2 horas a atrasa-los fiquei com um empeno nas coxas que até quarta-feira me obrigou a ficar na "zona de conforto".

Não sei o que se segue. Todas as provas em que estava inscrito ou tinha planeado realizar tiveram de ser canceladas. E a verdade é que por enquanto não estou nada ansioso de voltar a provas, estou bem a curtir a corrida com amigos.
Peninha - 22.05.2016



terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Ultra Trilhos dos Abutres - 31 Janeiro 2015

DNF...

Pela primeira vez não terminei uma prova que tinha iniciado. DNF, não por decisão ou lesão, mas porque não consegui cumprir, ao 30ºkm, o tempo de passagem intransigentemente respeitado pela organização. Esta foi uma prova indescritível. Todos os relatos e vídeos que li e vi não me prepararam para aquilo que vivi em Miranda do Corvo. Trail brutal, extreme em condições atmosféricas difíceis que várias vezes me fizeram duvidar da minha sanidade mental em voluntariamente ter-me colocado na linha de partida. Mas, acima de tudo, foi uma aventura inesquecível na companhia de malta fantástica. Posso não ter trazido o sapatinho para casa, mas trouxe uma história e uma mão cheia de novos amigos.
Adoro esta foto! Tudo animado e cheios de vontade de atacar os Abutres!
Toda esta aventura foi em grande parte uma novidade para mim. Começando logo com a logística. Com o início da prova marcado paras as 8h, sair no dia de Oeiras obrigaria a uma viagem demasiado "matinal", mesmo para os meus padrões. Deste modo decidi juntar-me a mais malta que habitualmente treina em Monsanto e fomos de véspera para mais uma estreia para mim, dormir no solo duro.

Mal chegámos a Miranda do Corvo fomos logo tratar do mais importante, jantar. Porque afinal de contas era preciso muita energia para enfrentar os Abutres. E o que mais se poderia comer na "Capital da Chanfana"? Foi um grande convívio onde juntámos uma mesa cheia de gente impecável. Mas, como em todo o fim de semana, o tempo corria e o secretariado fechava às 24h e não queríamos ficar "barrados".

Afinal chegámos bem a tempo e depois de uma verificação minuciosa ao meu CC lá me entregaram o dorsal e o saco das lembranças com a tshirt e um buff da prova. E não é que era mesmo um buff da Buff! Ainda deu tempo de passear brevemente pela feira e depois era hora da deita.
Montagem da "camarata" C14B.
Depois de tanta conversa sobre o solo duro, tal como para a prova, ia preparado para o pior. Ele era tampões para os ouvidos, leitor de MP3... Afinal foi super pacifico. O solo duro era nas salas de aula da escola básica ao lado do pavilhão. Devido à nossa chegada tardia foram necessárias algumas tentativas mas lá encontrámos uma sala vazia que se transformou na nossa camarata. A noite até nem se passou mal, tirando o facto de ter que me virar de 30 em 30 minutos porque ficava dormente. Cada vez que acordava ouvia a tempestade que se abatia lá fora.

Dormir com malta que habitualmente começa a treinar às 5:30 é lixado e às 6h já estava tudo levantado. A meio do nosso pequeno almoço recebemos a noticia do adiamento da prova para as 10h devido às condições meteorológicas. Agora já não havia nada a fazer e depois de arrumar o "quarto" fomos ansiosamente matar o tempo. O pavilhão fervia de actividade e os rumores eram mais que muitos: a prova ia ser cancelada, estavam à espera que os caudais baixassem, iam encurtar a ultra... E lá fora chovia copiosamente.
Já com a lição bem estudada afinavam-se as estratégias!
Poucos depois das 8h é anunciado que a prova irá mesmo começar às 10h e que os atletas podem começar a realizar o controlo 0. É ainda comunicado que se mantêm os 50km e será efectuado um briefing final antes do início da prova. Entretanto ficámos a saber que a 2ª metade do percurso fora alterado para evitar a passagem de um rio.
Ainda com o material na mão após o rigoroso controlo 0.
O pavilhão fervilhava de expectativa e após o mais rigoroso controle zero que já fiz lá nos preparamos para a partida. Nesta fase encontro muitas caras conhecidas e após um "Boa Prova" lá seguimos para a rua para iniciar a nossa aventura. E não é que está um céu limpo e um Sol radioso! Considero seriamente em tirar o impermeável. Cinco minutos antes das 10h, um elemento da organização faz o briefing, na linha da partida em voz, para 600 pessoas... Bem pode ter dito coisas super importantes como por exemplo que iam ser implacáveis com os tempos de passagem limite, mas eu, e praticamente todos os que estavam a mais de 5m do elemento da organização, não ouvimos nada...
Tudo a postos!
De forma quase implícita, quatro de nós, decidimos que iríamos tentar fazer a prova juntos, se bem que o elo mais fraco desta cadeia era "moi meme". Finalmente são 10h e o Miguel, o Pedro, o Serradas e eu começamos a nossa prova(ção). Os km's iniciais são feitos pelas ruas de Miranda. Primeiro por ruas largas de alcatrão e depois progressivamente por ruelas mais estreitas em empedrado. Prosseguimos por estrada quase 5km e chego a comentar que já tinha feito provas de estrada mais curtas... Mas pelo menos deu para esticar bem o pelotão e a verdade é que acabei por, em toda a prova, não ter grandes congestionamentos.

Antes de sairmos da vila passamos por um parque urbano circundado por um ribeiro que agora parece um rio de águas bravas. O parque está transformado num enorme lago onde só é possível ver o topo dos equipamentos infantis. Desde logo um "bom" prenuncio do que nos espera...
Em alcatrão até pareço um atleta!
A entrada em trilhos é feita de forma muito progressiva, primeiro por um estradão com algumas poças que progressivamente se ia afunilando e tornado num barranco de lama. Começam a aparecer as primeiras subidas mas ainda perfeitamente corriveis. Ultrapassamos inúmeros atletas que optam por começar desde logo a andar. Começo a sentir calor e dispo o impermeável.

Mas ao 7km embrenhamo-nos completamente na Serra da Lousã e em todas as dificuldades que 3 dias de chuva intensa lhe adicionaram. Os trilhos transformaram-se em autênticos ringues de lama que a trupe de atletas da frente ajudou a transformar numa papa viscosa. Por mais de uma vez sinto a sapatilha a querer sair do pé e tenho de começar a fazer ganchinho para não a perder. Seguimos junto a um ribeiro que atravessamos inúmeras vezes. Saltos e mais saltos que as pernas frescas ainda permitem. Acabou por ser um óptimo momento didáctico e acho que aperfeiçoei a minha técnica de saltos. Embora com dificuldade conseguimos manter um ritmo aceitável fruto do pouco desnível. Mas também isso é algo que pouco dura e ao 10km começamos a primeira subida.

Nos 3km seguintes, a acumular às dificuldades já referidas, começam a surgir paredes de lama que temos de escalar. Aqui vale tudo, mãos, raízes, ramos, pedras, empurrar o rabo do colega da frente, ser empurrado. O ritmo começa a baixar e baixa ainda mais quando começamos a ser ultrapassados pelos primeiros atletas da prova dos 25K. Sempre que sinto alguém nas minhas costas paro e cedo passagem.
Vamos lá equipa! E impermeável na mochila que já tinha dado para aquecer.
Chegamos a Corujeira e ao topo da primeira subida. Os escassos metros em alcatrão que fazemos na aldeia são um desanuviar para as pernas e cabeça. Passamos por uma placa que diz "Posto de Controlo" mas está deserta.

Começamos a descer, e se a subida tinha sido difícil, a descida foi surreal. Para mim sempre foram mais difíceis as descidas técnicas do que as subidas. E nestas condições estava completamente fora do meu elemento. Primeiro muito a medo, mas depois lá me fui libertando e entre escorregadelas e algum ski acabou por ser um dos segmentos mais divertidos da prova. A meio da descida a temperatura começa a baixar muito repentinamente, e após um trovão assustador começa a cair granizo. Arrependo-me de ter tirado o casaco mas, no meio da descida, não há nada a fazer a não ser levar com o gelo nas trombas e esperar que passe.

O primeiro abastecimento chega ao 14,5km (estava anunciado ao 13km) com 2h15m. Não é fantástico mas tem o que é preciso. Pego numa banana, um tomate com Sal e encho a garrafa com isotónico. Até aqui quase não bebi nenhuma da água que transporto. Ficamos muito pouco tempo mas aproveito para voltar a vestir o impermeável.

Retomamos o percurso com o ataque ao topo da Serra, e regressam os obstáculos. Trilhos e mais trilhos super técnicos. Sempre com os pés dentro de "água" e com poucas oportunidades de correr para aquecer. No meio dos meus pensamentos a descrição que me vêm à cabeça é que por comparação isto faz parecer Monsanto num dia de tempestade um citytrail...
Ilustração da definição de "trilhos corriveis" nos Abutres. 
Já na crista da Serra apanhamos com a segunda dose de granizo, mas desta vez com impermeável até acho alguma piada. O pés parecem dois tijolos e assusto-me a sério quando, após olhar para o relógio e verificar que não como nada há quase 2h, decido ingerir uma barra. As mão não me respondem e só com muita dificuldade consigo abrir o pacote. Embora não sinta frio, tenho as mãos geladas. Começo a abrir e fechar as mãos para tentar activar a circulação e embora não recupere também  não ficam piores.

Chegamos ao segundo abastecimento,Mestrinhas, com 23,5km e 4h15m (estava anunciado 22km). Aqui estava muito frio e quando chegamos vimos vários atletas embrulhados nas mantas térmicas. Nunca tinha visto tanta manta térmica. Sigo a mesma ementa do abastecimento anterior mas acrescento Coca-cola, estava precisar de algo doce e da cafeína. Um dos voluntários avisa que já foram evacuados pelo menos 10 atletas e que estão outros tantos ali à espera. Fico ainda mais assustado e apresso o pessoal para seguirmos. Mas o Serradas não está nos seus dias e diz para seguirmos porque precisa de mais alguns minutos.
Afinal também haviam trilhos "normais" e a organização colocou lá um fotografo para o comprovar!
Algo contra vontade lá seguimos e mesmo antes de atingirmos o ponto mais alto da serra começo a ver pequenos flocos de neve a cair, que se transformam em água mal tocam o solo. A visibilidade é muito baixa e embora já as ouvíssemos há algum tempo apenas quando estávamos debaixo delas é que conseguimos ver as eólicas.

Pela primeira vez olho para o relógio para fazer contas. Estamos no início da descida, com 25km e temos 4h35m de prova. Teoricamente teríamos 55m para correr 4km, a descer. Mas se a prova estava a ser muito técnica e difícil até ali, aquele km's seguintes foram completamente infernais. A descida seguia por um trilho junto às margens de uma ribeira, ora numa ora noutra, que atravessávamos por rústicos passadiços de tronco. No verão deve ser lindíssimo. Mas em Janeiro era um escorrega continuo de lama. O ribeiro seguia com uma força desmesurada arrastando tudo no seu leito com um barulho ensurdecedor. Perdi a conta às vezes que escorreguei, até porque o rabo era um apoio perfeitamente válido, assim como as mão, os cotovelos, os joelhos ou a testa...
A altimetria com os tempos limite...
Assusto-me muito a sério quando, numa curva, perco a tracção nos dois pés, caio lateralmente e vou deslizado em direcção do ribeiro. Felizmente consigo agarrar uma raiz e evitar um banho de imersão. Um pouco mais à frente, volto a escorregar, mas desta vez ao tentar recuperar o equilíbrio, estico demasiado o gémeo e tenho uma caimbra que me deixa KO durante alguns segundos. Perco o contacto com os meus companheiros mais rápidos (penso até com o filtro de sanidade levemente desajustado). Estou farto de single tracks! Quero um estradão para poder correr!

Sou ainda "salvo" por um atleta que seguia atrás de mim quando, ao sair de uma das "pontes",  me agarra pela mochila e evita que derrape margem abaixo. Obrigado! Alguns metros mais à frente é a minha vez de ajudar outro atleta a sair de dentro do ribeiro para onde escorregou numa outra "ponte". Dizem que é o espírito do trail.
Apenas mais um ribeiro...
A certa altura comecei a ouvir "Olha o copo!", jogo a mão à mochila e não sinto o meu copo. Paro e olho para trás, e quem é que lá está de copo estendido? O Serradas! Tinha recuperado e já me tinha alcançado.

Mas as maiores parvoíces perigosas de todo este segmento ainda estavam para vir. Em algumas provas de trail podemos observar quedas de água, nos Abutres temos de desce-las. O percurso descia por dentro do ribeiro umas centenas de metros, bem ao espírito do Canyoning. Nos primeiros metros ainda existia uma corda para ajudar, mas depois era à aventura. Obviamente que escorreguei e tomei um duche de água geladinha. Mas vendo bem o potencial da coisa até nem escapei mal. O mesmo não pode dizer um atleta que vi pouco depois da cascata. Estava deitado no chão embrulhado na manta térmica e já na companhia de dois ou três bombeiros.
A preparação para o duche...
Mas o "melhor" estava guardado para o fim do segmento. Um escorrega de lama com cerca de 200m. Já vi escorregas em parques infantis com menos inclinação. Lá fomos num sku controlado e muito cuidadoso. A meio do escorrega "sobe" a noticia que já fecharam o controle e que estão a barrar os atletas. Admito que nesse instante senti alivio. A frustração só chegou depois...

Chego ao posto de controle com 5h56m, 26min após o limite. A prova acabará, com 30km.

Pedem-me que entregue o Chip. Sem mais conversa ou explicação. Retiro e chip e é como se me estivessem a tirar uma parte de mim. Nunca antes tinha tido semelhantes sentimentos por uma quadradinho de plástico...

De repente estou rodeado por centenas de atletas, parece que todo o mundo ficou ali barrado. Muitas caras conhecidas de outras provas. Há muita frustração e indignação no ar com a decisão da organização de fazer cumprir rigorosamente o regulamento. Corre a história de quem tenha sido barrado por segundos e um grupo de espanhóis, especialmente sonoros, descarrega a frustração em vernáculo castelhano. Há quem queira continuar mesmo sem o chip (soube depois que houve quem o tivesse feito), mas depois lá conseguimos serenar um pouco e optar por voltar para o pavilhão. 

O mais irónico de tudo e um dos factos mais frustrantes era que eram 16h, estava Sol e ainda havia muita energia nas pernas. Podiam ter atolado o nosso ego, quebrado as nossas expectativas, privado-nos de ser "finisher" mas chegaríamos ao pavilhão de Miranda pelo nosso pé! Se não era por trilhos seria por alcatrão. Após confirmar com um bombeiro a estrada a seguir lá fomos nós fazer mais 5km e "fechar" o track. Mal começámos a correr uma dezena de outros atletas viram-nos e acompanharam-nos neste segmento final.
A caminho de Miranda sem ego chip.
Estávamos tão bem que ainda demos um voltinha extra em Miranda só para ir subir a famosa rampa final e entrar no pavilhão pela pórtico de chegada. Chegámos mesmo a tempo de ver a elite feminina a chegar e passar cabisbaixo  pela mesa com os sapatinhos "finisher".

No nosso grupo nem todos fomos barrados e ainda ficámos algum tempo à espera das máquinas! Todos os que terminaram o Abutres este ano são elite e têm todo o meu respeito! Parabéns!
E por fim a minha foto favorita: a chegada da grande equipa!
Muito obrigado aos meus companheiros, pelas fotos, pelo filme mas acima de tudo pela companhia, motivação e paciência. E deixei o melhor para o fim! O Pedro e o Miguel para além de irem sempre a puxar ainda conseguiram ter disponibilidade para filmar e tiveram a mestria de montar um video todo catita que aqui partilho.


O balanço final não é, obviamente, muito positivo. Foi sem dúvida uma grande aventura, a mais "extreme" que alguma vez fiz. Adorei os km's onde consegui efectivamente correr. Mas acho que a organização saiu muito mal na fotografia. Tinha tudo para ser uma prova irrepreensível em termos de organização, mas não é aceitável que quase metade dos atletas tenham sido barrados. Não estou a falar de pessoas inexperientes e mal preparadas, vi muitas caras bem conhecidas da modalidade na Srª da Piedade. Com a égide da "segurança" dos atletas acho que as decisões tomadas foram mais no sentido da "segurança" da organização. 

Apesar de, tal como a organização referiu, estar a chover intensamente na Serra à três dias, ficou a sensação que não havia um plano B. O adiamento em duas horas colocou uma pressão enorme nos tempos limite desde logo muito exigentes. 

Depois a alteração no percurso. Devido ao elevado caudal no rio foi necessário alterar a parte final da prova, até aqui a organização esteve muito bem. Mas em vez de encurtar, decidiu acrescentar os km's no início pelas ruas de Miranda. Foram 1,5km a mais como se verificou na distância para todos os abastecimentos. Não é que os 10min tivessem algum impacto na minha prova, mas quem foi desclassificado por segundos tinha razões para se queixar. O segmento das Mestrinhas para a Srª da Piedade nas condições em que se encontrava era demasiado perigoso, sendo que tinha dois pontos estupidamente perigosos. É verdade que estavam pessoas da organização em ambos os pontos, mas acho que eram perfeitamente evitáveis e a prova não perderia a mística sem aquelas duas descidas.

Fiquei com a sensação que a organização só pensou nas elites e no campeonato. Optou por não cancelar a prova e garantiu que a elite chegava para aparecer na TV. O resto do pelotão? Azar. Para o ano há mais e as inscrições irão esgotar ainda mais depressa.

Não resisti e fui olhar para os resultados. O primeiro atleta passou pelas Srª da Piedade com 2h59, o último, obviamente, com 5h30. Ora utilizando a "regra" do dobro do tempo do primeiro, 6h seria um tempo perfeitamente aceitável para se passar no controlo. Mais, o último atleta a chegar à meta fez-lo em 10h16, quase 3h antes do tempo limite para a prova! 

Se volto aos Abutres? Não sei. Talvez num ano de seca. Afinal temos de ser humildes e compreender que terminar os Abutres não é para quem quer. Fiquei chateado com a situação e afinal não é só nos Abutres que há Lousã...

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

E começou a chover...

E começou a chover...

Eu até sou um tipo optimista por natureza. Há até, quem exaspere com a calma com que às vezes encaro os contratempos. Mas nesta última semana começaram a surgir-me umas borboletas na barriga. À medida que tornava a reler relatos e rever videos de edições anteriores, as borboletas cresciam. E hoje começou a chover. E as borboletas transformaram-se em vespas asiáticas gigantes.

É "giro" como os mesmos textos e os mesmos filmes que há um ano atrás me pareciam uma fantástica aventura e um desafio de sonho, surgem agora como quasi-estórias de terror e sofrimento. Não consigo perceber como é que o meu sub-consciente eliminou a lama, as quedas e todas as referências ao trail mais "hard" que os "Hard Trail"...

É como ver o video de apresentação desta 5ª edição: paisagens de sonho, single tracks verdejantes e secos, sol... 

E depois ver o extraordinário video do astrodeckStudio da edição do ano passado: lama, chuva, dureza no seu estado mais puro...

Dizem que os Abutres são a meca do trail em Portugal, se calhar devia ter ido primeiro visitar umas capelas mais pequenas... Agora não há volta a trás... Sábado vou "correr" um dos trails mais duros de Portugal sob condições meteorológicas muito adversas... Tudo para correr bem, portanto.

Não queria terminar sem atribuir culpas, sim porque de certeza que não foi minha! Queria culpar os bloggers e os realizadores por criarem na Internet uma aura de quase magia que fazem esta prova de inscrição quase obrigatória. Depois queria culpar a malta do Esquilos, que com os seus testemunhos criaram em mim um desejo insaciável de ir "correr" este desafio. E por fim, queria culpar a minha filha Mafalda, que no dia 3 de Novembro me acordou a chorar às 4h da manhã e assim me permitiu, efectivamente, inscrever-me!

Queria apenas deixar estas breves linhas para quando, numa futura ocasião, estiver a considerar inscrever-me no Inverno numa prova no limiar das minha capacidades, TOMAR JUÍZO E LEMBRAR-ME DO STRESS EM QUE ESTOU!
Mantra para sábado: "Não vou ser carcaça para os Abutres!"
PS - Será que o meu frontal é suficientemente impermeável???  Bom por outro lado tenho a certeza que vou ficar "curado" das minhas peneiras sobre molhar os pés...