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sexta-feira, 27 de maio de 2016

Ultra Trilhos dos Abutres - 30 Janeiro 2016

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Sim, estou a publicar este post quase 4 meses depois da prova. Até para os meus parâmetros é muito tempo. A verdade é que já tinha grande parte deste texto escrito à algum tempo, mas não me apeteceu publicar. Queria fixar esta memória com um último paragrafo de esperança e optimismo. E este fim de semana, no regresso aos trilhos em Sintra, consegui finalmente escrever esse final...
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Os Abutres não querem, definitivamente,nada comigo. Mais um ano, mais uma prova, mais um DNF...

Terá sido a prova que comecei com mais receio, medo até. Depois da experiência do ano passado, tudo me acagaçava, e, ainda não estando completamente recuperado dos entorses crónicos do pé esquerdo, o receio de ficar pelo caminho era bem fundado. Mas nenhum dos cenários de tragédia e horror que pintei nos dias anteriores me poderia preparar para o que me aconteceu naquela fatídica prova.
A foto que já é um clássico em Miranda do Corvo...
A coisa até começou bem. A chuva e mau tempo deram uma trégua e seria quase impossível ter melhores condições meteorológicas. Saímos de véspera, como o ano passado, e ainda deu para irmos comer uma chanfana no restaurante do costume. Parecia que Monsanto se tinha mudado para Miranda do Corvo, tantas eram as caras conhecidas. A excitação era tamanha que desta vez a noite no solo duro foi quase em branco, mas às 8 horas em ponto estávamos prontos para mais uma aventura. No meu caso, micro aventura.

É curioso como podemos passar dias, semanas até meses sem que nos aconteça nada que verdadeiramente mereça registo na nossa memória. E depois, no espaço de um segundo tudo pareça que vai desabar em cima nas nossas cabeças.
Ainda no inicio. Como sei? Ainda estou a correr...
Comecei a prova como no Vicentino, sem me preocupar em seguir ninguém e com super cuidado onde metia os pés. Quis o destino que por acaso não tenha andado muito longe de alguns dos elementos da pandilha. E foi o que me valeu quando aos 30 minutos de prova e ao tocar do 5km, cai. No exacto momento em que bato no chão sei que a minha prova acabou ali, e as primeiras lágrimas são pela frustração de mais uma vez ir ficar pelo caminho, as seguintes já são mais físicas...

As quedas são geralmente estúpidas, mas esta foi particularmente idiota. Ainda quase dentro de Miranda, num acesso de cimento algo inclinado a umas garagens, sinto alguém a escorregar nas minhas costas, olho para trás sem parar e quando estou  com o corpo torcido escorregam-me ambos os pés e caio completamente de lado sobre o braço direito e a testa.
Segundos após a queda já com o Miguel a dar os primeiros socorros.
Não me lembro de exactamente tudo o que se passou a seguir, mas lembro-me de, ao me ajudarem a endireitar, o braço ficar pendido e ter aquela horrível sensação de na nossa cabeça o braço estar numa determinada posição e quando olhamos está completamente noutra... E claro, depois sentir o osso a mexer dentro do bicipede...

Felizmente tínhamos acabado de passar por um jipe da organização e, com a ajuda preciosa do Miguel Serradas, lá fizemos os 400m em sentido contrário. Aqueles metros terão sido das coisas mais angustiantes que alguma fiz em provas. Entre as dores, a interiorização que a prova tinha acabado e o passar em sentido contrário por centenas de atletas... Mais uma vez valeu o Miguel que qual GNR num local de acidente, exortava o pessoal seguir: "Tá tudo bem, nada aqui para ver."

Entregue ao pessoal da organização lá convenci o Miguel a continuar, e foi com grande alegria que ao final do dia fiquei a saber que tinha terminado. Fui rapidamente transportado para o Hospital de Coimbra e depois de algumas situações caricatas lá tive o diagnóstico, fractura do úmero. Quando dei entrada na urgência não devem ter acreditado que tinha o braço partido e devido ao corte no sobreolho mandaram-me para a cirurgia estética. Depois do que na altura me pareceu uma eternidade,  fui atendido por uma estagiária, que, após estar 5 minutos a olhar para mim sem saber muito bem o que fazer decide auscultar-me. Os meus gritos de "PODE CORTAR! PODE CORTAR" quando ela me tentava despir o corta-vento devem ter chamado a atenção de um médico mais sénior que de imediato mandou darem-me uma injecção para as dores e levar-me para o raio-x. No raio-x, as técnicas ficaram muito preocupadas com uma massa muito densa que tinha no peito... Nota, quando forem tirar raios-x lembrem-se de tirar a banda cardíaca... Quando finalmente chego à ortopedia e começam a engessar-me o braço fico aliviado, até me explicarem que devido à localização da fractura terei de ser operado e que o gesso é só para me imobilizar.
Chamemos-lhe "Nu com gesso e calções de compressão"
Mas a minha "ultra" ainda estava a começar. Foram precisas mais de 12 horas, 3 hospitais e outras tantas ambulâncias para finalmente chegar ao local onde, 3 dias depois, viria a ser operado. E digo já, que passar um dia à espera, deprimido, com dores, em tronco nu, vestido apenas com calções de compressão e sapatilhas enlameadas nos corredores de hospitais testa a paciência de qualquer um.

A operação correu bem e devo ter saído com mais juízo pois ganhei 12 novos parafusos, para além de uma cicatriz sexy de 30cm. Nunca tinha estado hospitalizado mas a verdade é que fui muito bem tratado no Hospital de Sant'ana na Parede.
Não, não tenho uma centopeia agarrada ao osso, é mesmo uma placa e 12 parafusos!
Os últimos meses têm sido de recuperação e embora só tenha estado "parado" 6 semanas foi o suficiente para perder completamente a forma. Só para terem uma noção, nessas 6 semanas, sem praticamente sair de casa e a comer como se tivesse uma dispensa na divisão ao lado, perdi 4kg... Os pouquinhos músculos que tinha evaporaram-se. A primeira corrida que dei pensei seriamente que o coração me ia saltar do peito, a correr a mais de 5min/km, no passeio marítimo...

Este reset forçado acabou também por proporcionar um descanso à cabeça. A verdade é que desde que comecei a correr, em 2010, nunca tinha estado parado mais que alguns dias. Vou dizer uma blasfémia, mas tem sabido tão bem ficar na cama ao Domingo de manhã... (pelo menos até a Mafalda acordar às 8h da manhã, é a loucura). Durante este tempo fiquei-me pelo alcatrão, aumentado muito progressivamente o ritmo mas muito raramente saindo da zona de conforto.

A semana passada fui à última consulta de acompanhamento da cirurgia e o médico deu-me "alta"! Ok, o osso está consolidado mas a recuperação total irá levar meses, pelo que tenho de ter juízo. Para comemorar fui para Sintra e nem me custou nada levantar às 6:00 de um Domingo. Foi muito bom voltar aos trilhos com os amigos. Claro que eles não tiveram este tempo a malandrar e após estar 2 horas a atrasa-los fiquei com um empeno nas coxas que até quarta-feira me obrigou a ficar na "zona de conforto".

Não sei o que se segue. Todas as provas em que estava inscrito ou tinha planeado realizar tiveram de ser canceladas. E a verdade é que por enquanto não estou nada ansioso de voltar a provas, estou bem a curtir a corrida com amigos.
Peninha - 22.05.2016



segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

III Trail Centro Vicentino da Serra - 10 Janeiro 2016

Foi ÉPICO!
Porque consegui terminar e sem mazelas (de maior)... Se tivesse ficado pelo caminho se calhar teria escrito um amargurado trail duro e demasiado "extreme"... Mas poucas coisas superam aquele momento de glória, em que passamos por baixo do pórtico para uma sala cheia de sorrisos, depois de 7 horas de pensamentos algumas vezes(muitas) sombrios. E por isso foi Épico!
A melhor foto que tenho de corridas!
O ano passado este foi o trail que mais pena tive de não ter ido, principalmente depois de todos os relatos fantásticos que li. Pelo que, para 2016 estava no topo das minhas prioridades. E como nos dias que correm os trails esgotam mais depressa que bolinhos quentes, fiz questão de me inscrever mal abriram as inscrições. E foi uma autentica festa! Acho que nunca tinha ido a uma prova onde conhecesse tanta gente. Parecia que Monsanto se tinha mudado para Portalegre!
A partida ainda tudo muito fresco.
A organização esteve impecável e montou uma das melhores provas onde já participei. Não só pela prova em si mas também por todos os eventos paralelos que tornaram o TCVS numa autentica prova familiar. Quero evidenciar em particular dois que a família Soeiro teve o prazer de participar: o Vicentino Kids Night Run e o Autocarro de acompanhantes.
O primeiro foi um super sucesso e com uma ajuda preciosa de S.Pedro transformou o Jardim do Tarro num recinto de festa. Foi fantástico ver a alegria dos miúdos de frontal na testa a iluminar o jardim. A Margarida, na sua qualidade de "Traquina", adorou correr de noite por entre lama e canaviais. Segundo ela foi a melhor corrida em que já participou! E a entrega das medalhas foi simplesmente extraordinária! E o orgulho com que levou a medalha e o frontal no dia seguinte para a escola para mostrar aos colegas...
O Autocarro de acompanhantes, apesar da meteorologia adversa e de um ou outro desencontro de expectativas, foi também um sucesso ao colocar autenticas claques no meio da serra. Não só foi muito bom receber o apoio das minhas meninas no 2º PA, como assim puderam preencher uma boa parte das 7 horas que de outra forma teriam de ser passadas à espera no mercado.

Também a nível das lembranças esteve muito bom, com um dorsal indestrutível (tive inclusive de utilizar um corta unhas para o conseguir furar para o colocar no porta dorsal), uma boa tshirt de manga comprida muito colorida (mas afinal estamos a falar de malta que anda com "lenços" berrantes à cabeça só por que sim) para além de uma chávena de café da delta. No pack dos kids ainda tinham um frontal.
A atleta e o emplastro! (legenda por Liliana Eusébio)
Partida Lagarta Fugida!
Ambiente contagiante na recta final da prova dos traquinas!
Em relação à prova em si. Com marcações irrepreensíveis, aliado ao facto de à minha passagem existir sempre um rio de lama a indicar o percurso, era efectivamente difícil sair do trajecto. As placas "informativas" também estavam fenomenais, dando a sensação que a organização estava sempre connosco. É verdade que em algumas, principalmente para o final, só tinha vontade de esmurrar quem as escreveu... como por exemplo na "Amazónia Vicentina" ou "Uphill Vicentino"...
Passámos por bombeiros e pelo menos uma tenda da cruz vermelha. Vários voluntários ao longo do percurso, à chuva e ao frio, apenas para nos indicar o caminho, facilitar uma travessia de estrada ou até pular um riacho. Super prestáveis e simpáticos mesmo quando, já a evidenciar alguma saturação de lama entre os neurónios, perguntei algo brusco se faltava muito para o último abastecimento.
NÃO ESTÁS A OLHAR PARA O CHÃO! QUERES TORCER O PÉ?
Os abastecimentos estavam nos sítios certos e com o essencial e mais alguns mimos como o salame de chocolate (hummm) ou a boleima (hummmmmmm). A coca cola era coca cola e havia isotónico e água com fartura. Para a malta lenta, como eu, a sopa no último abastecimento terá sido demasiado tarde. Se tivesse no abastecimento anterior, onde o vento e o frio apertavam teria sido mais eficaz. Ali no 37km já se sentia o sabor da meta.

Em relação à minha prova, tentei acompanhar os menos rápidos da pandilha, mas depressa percebi que não tinha a forma e a técnica para os acompanhar. As condições meteorológicas muito agrestes transformaram os trilhos desde logo técnicos em verdadeiros escorregas de lama, e com o meu pé esquerdo ainda em recuperação passei os primeiros km's literalmente a olhar para o chão a contabilizar pedrinhas. Depois lá relaxei um pouco mas sempre a sacrificar a velocidade pela segurança. Para o meio e para não variar lá vieram as cãibras. Certinhas e direitinhas, ao 32km, primeiro a esquerda, depois a direita, obrigaram-me a umas paragens para alongamentos. Felizmente não voltaram a chatear mas fizeram-me (ainda mais se tal era possível) progredir cuidadosamente.
Quando ainda conseguia seguir com parte da Pandilha.
Em bendita hora decidi não levar os bastões. Tal como nos Abutres, com a minha inexperiência e o terreno agreste teriam sido praticamente inúteis, uma vez que era muito mais importante ter as mãos livres para agarrar o que fosse possível. E aqui surge mais uma grande inovação que levei para o TCVS, luvas! Depois de horas a procurar uma luvas para utilizar neste trails mais agrestes recebi uma dica fenomenal, luvas de trabalho, disponíveis em qualquer loja da especialidade (vulgo chinês) e por um par de euros. Com a zona da palma emborrachada protegiam ou mesmo tempo que garantiam a tracção necessária. Comecei a prova sem elas, mas à medida que ia subindo a serra o frio começou a fazer-se sentir, e graças à experiência do ano passado nos Abutres, reconheci logo os primeiros sinais de problemas e coloquei as luvas. E a verdade é que não voltei a ter as mãos trôpegas e os únicos arranhões com que fiquei foram feitos antes da entrada em cena das ditas.

Perdi a conta às quedas que dei. Felizmente sem consequências de maior, à excepção de uma mega escorregadela nas lajes da "Cordilheira Vicentina" em que ao rolar para me agarrar dei um jeito ao ombro direito que ainda me incomodou durante uns minutos. Depois lá passou e até agora não voltou a chatear.
"São elas, são elas!" O reencontro no PA2.
Os primeiros 14km foram espectaculares, do melhor que alguma vez corri em trilhos. Single tracks sem fim e paisagens deslumbrantes. A organização não se poupa a esforços para animar os atletas, desde palhaços, salamandras gigantes e até um sonoro grupo de índias. O terreno estava pesado, mas sempre corrivel. Apenas as longas filas de atletas diminuíam o ritmo. Lembro-me do Sílvio comentar que as minhas meias ainda estavam muito brancas... E claro, tudo fica mais extraordinário quando, no alto da serra, temos à nossa espera as minhas lindas flores.

Nos km's seguintes tudo começa a complicar. Tenho cada vez mais dificuldade em seguir a malta e no 3 PA, onde até havia café expresso embora eu não tenha bebido, digo ao Sílvio para seguir. A partir deste ponto, sem a motivação da companhia e efectivamente sozinho durante largos períodos, entro em modo de sobrevivência e reduzo ainda mais o ritmo.
"Pare, escute e aprecie a paisagem!"
A meteorologia esteve sempre muito agreste, mas no topo da serra chegava a meter um pouco de medo, com o vento a fazer um barulho ensurdecedor entre as árvores e a chuva a nos castigar completamente na horizontal.

No briefing inicial o Director de Prova bem tinha avisado para não esperarmos facilidades depois do 30km, e efectivamente não estava a minimizar a coisa. Pessoalmente não aprecio que as provas tenham muitas dificuldades no último terço. As pernas já não estão frescas e a cabeça já começa a saturar. Mas aquilo que apanhámos nos últimos 12km do TCVS foi um percurso muito exigente que com a intempérie se transformou num dos mais duros finais de prova que alguma vez fiz. Nesta altura, e até devido às cãibras sou ultrapassado por vários atletas, mas mesmo assim ainda ultrapasso outros, na sua maioria em dificuldades devido a quedas ou entorces. 
A empatar atletas desde 1980.
Durante estes km's muitas vezes a minha mente avança 3 semanas e pensa naquilo que irei encontrar na Lousã. Pergunto-me muitas vezes se fará sentido meter-me noutra reconhecidamente ainda mais dura quando estou em tantas dificuldades nesta. As comparações com os Abutres, na minha cabeça, foram muitas, e pelo que percebi depois não fui o único. Para mim a grande diferença entre o TCVS deste ano e os 30km dos Abutres do ano passado foi que, embora ambos tenham sido muito duros, aqui nunca encontrei situações estupidamente perigosas. A única coisa que me deixou um pouco mais esperançado para o final do mês é que consegui passar no PA dos 29km em 4h30, com alguma margem para a célebre barreira horária que irei ter que derrubar.

Nos últimos km's já só sonho com o mercado, e embora tenha de fazer ainda mais um trilho técnico a subir, acelero. Vejo Portalegre e entro num estradão, o meu coração rejubila com a ideia de o seguir até à cidade, mas não. Conseguimos ir quase até à porta do mercado por trilhos. Última rampinha e depois, finalmente, o mercado.
"Não tira os olhos do chão!" 10258 pedrinhas, 10259 pedrinhas...
A chegada do TCVS é apoteotica, mesmo para a malta do fim do pelotão. Subir aquela passadeira vermelha e celebrar ter completado mais uma grande prova. O José Presado estava na meta a receber os atletas e anuncia o meu nome no sistema de som, mas tudo o que quero é procurar as caras conhecidas que sei que ansiosamente me esperam. Vejo-as, sorrio, está tudo bem. 
Ainda recebo das mãos da Liliana a linda medalha também ela moldada por mãos especiais da CERCI de Portalegre.

Foram 7h10 de prova, teoricamente com 42km e 1700m D+ embora o meu relógio tenha perdido 1km e o D+ tenha ido até aos 2120m. Pelo que vejo no STRAVA a maioria dos atletas tem os 42km prometidos embora o D+ nos relógios com barómetro ande na casa dos 2100m D+.

Foi uma prova dura, muito mais dura do que estava à espera, obviamente muito devido às condições atmosféricas. Prefiro provas onde me posso focar mais no prazer da corrida do que no espírito de sobrevivência, mas é impossível não ficar rendido com o TCVS. Quer pelo percurso quer pela forma como fomos recebidos em Portalegre.

Queria agradecer à organização por me fazer voltar a acreditar em Ultra Trails. Agradecer também ao resto da Pandilha que me convenceu a inscrever e tanto puxam por mim, principalmente ao Pedro P. pela fantástica foto que tirou à família Soeiro. Aos inúmeros fotógrafos aos quais roubei as fotos que documentam este texto

Por fim queria agradecer à minha enorme Inês que ainda se deixa convencer em ir atrás de mim nestas coisas e que estoicamente aturou as duas pulguinhas, e desta vez com o bónus de um tratamento de criogenia no alto de S.Mamede.

Até para o ano Vicentino!

Os atletas e as medalhas equipados a rigor!
*********ACTUALIZAÇÃO*********
E o Pedro P. continua a supreender, para além de grande atleta e fotografo ainda teve disponibilidade para filmar e criar uma excelente recordação da prova.Também contribuiu para as filmagens outro grande atleta da pandilha o Miguel S.. Eu bem levei a máquina para Portalegre, mas depois não tive coragem para a levar... E sem mais demoras aqui fica o vídeo.



terça-feira, 23 de junho de 2015

III INATEL Piodão Ultra Trail - 28 Março 2015

Mas que magistral empeno! É sempre fácil dizer que o empeno actual é o MAIOR de sempre, principalmente porque já não nos lembramos dos anteriores, mas tenho quase a certeza que este foi o meu MAIOR empeno de sempre! Esta prova era o grande objectivo do 1º semestre, juntamente com a prova de Janeiro cujo o nome não pode ser pronunciado, e, principalmente devido à forma como correu em Janeiro, precisava que esta corresse bem.
A tshirt catita, o dorsal, o prémio e os meus salvadores: bastões e cábula
Provavelmente foi a prova de trilhos que melhor preparei (dentro do meu esquema de treinos que passa principalmente por fazer aquilo que me apetece quando tenho oportunidade). Graças às boas/más companhias, que andava a preparar voos muito mais longos, os últimos meses foram recheados de D+, escadas e muitos km's nas pernas. A única coisa que faltou na preparação foram mesmo treinos mais longos em trilhos, algo que viria a pagar com juros na ponta final desta prova...

Empeno fenomenal, perfeito para limpar a memoria da prova de Janeiro. Prova muito dura, com subidas brutas e descidas cruéis. Muito calor, muito xisto, muita beleza e muitas cãibras... A descida para Foz de Égua foi um tormento. Acabou por toldar o que seria uma prova perfeita. Pela primeira vez completamente a solo deu para testar os limites da máquina, mas faltou o incentivo da companhia nos momentos mais sombrios. Organização perfeita e paisagens de sonho.

Até para o ano Piodão!
Pico do Colcurinho, o último momento sano antes da Descida...
Infelizmente não consegui escrever um post como esta prova merecia. Mas devido ao facto de já ter passado mais de dois meses e entretanto já ter feito outras provas, decidi publicar assim mesmo e pelo menos ficar com esta recordação. Pode ser que eventualmente o termine...


terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Ultra Trilhos dos Abutres - 31 Janeiro 2015

DNF...

Pela primeira vez não terminei uma prova que tinha iniciado. DNF, não por decisão ou lesão, mas porque não consegui cumprir, ao 30ºkm, o tempo de passagem intransigentemente respeitado pela organização. Esta foi uma prova indescritível. Todos os relatos e vídeos que li e vi não me prepararam para aquilo que vivi em Miranda do Corvo. Trail brutal, extreme em condições atmosféricas difíceis que várias vezes me fizeram duvidar da minha sanidade mental em voluntariamente ter-me colocado na linha de partida. Mas, acima de tudo, foi uma aventura inesquecível na companhia de malta fantástica. Posso não ter trazido o sapatinho para casa, mas trouxe uma história e uma mão cheia de novos amigos.
Adoro esta foto! Tudo animado e cheios de vontade de atacar os Abutres!
Toda esta aventura foi em grande parte uma novidade para mim. Começando logo com a logística. Com o início da prova marcado paras as 8h, sair no dia de Oeiras obrigaria a uma viagem demasiado "matinal", mesmo para os meus padrões. Deste modo decidi juntar-me a mais malta que habitualmente treina em Monsanto e fomos de véspera para mais uma estreia para mim, dormir no solo duro.

Mal chegámos a Miranda do Corvo fomos logo tratar do mais importante, jantar. Porque afinal de contas era preciso muita energia para enfrentar os Abutres. E o que mais se poderia comer na "Capital da Chanfana"? Foi um grande convívio onde juntámos uma mesa cheia de gente impecável. Mas, como em todo o fim de semana, o tempo corria e o secretariado fechava às 24h e não queríamos ficar "barrados".

Afinal chegámos bem a tempo e depois de uma verificação minuciosa ao meu CC lá me entregaram o dorsal e o saco das lembranças com a tshirt e um buff da prova. E não é que era mesmo um buff da Buff! Ainda deu tempo de passear brevemente pela feira e depois era hora da deita.
Montagem da "camarata" C14B.
Depois de tanta conversa sobre o solo duro, tal como para a prova, ia preparado para o pior. Ele era tampões para os ouvidos, leitor de MP3... Afinal foi super pacifico. O solo duro era nas salas de aula da escola básica ao lado do pavilhão. Devido à nossa chegada tardia foram necessárias algumas tentativas mas lá encontrámos uma sala vazia que se transformou na nossa camarata. A noite até nem se passou mal, tirando o facto de ter que me virar de 30 em 30 minutos porque ficava dormente. Cada vez que acordava ouvia a tempestade que se abatia lá fora.

Dormir com malta que habitualmente começa a treinar às 5:30 é lixado e às 6h já estava tudo levantado. A meio do nosso pequeno almoço recebemos a noticia do adiamento da prova para as 10h devido às condições meteorológicas. Agora já não havia nada a fazer e depois de arrumar o "quarto" fomos ansiosamente matar o tempo. O pavilhão fervia de actividade e os rumores eram mais que muitos: a prova ia ser cancelada, estavam à espera que os caudais baixassem, iam encurtar a ultra... E lá fora chovia copiosamente.
Já com a lição bem estudada afinavam-se as estratégias!
Poucos depois das 8h é anunciado que a prova irá mesmo começar às 10h e que os atletas podem começar a realizar o controlo 0. É ainda comunicado que se mantêm os 50km e será efectuado um briefing final antes do início da prova. Entretanto ficámos a saber que a 2ª metade do percurso fora alterado para evitar a passagem de um rio.
Ainda com o material na mão após o rigoroso controlo 0.
O pavilhão fervilhava de expectativa e após o mais rigoroso controle zero que já fiz lá nos preparamos para a partida. Nesta fase encontro muitas caras conhecidas e após um "Boa Prova" lá seguimos para a rua para iniciar a nossa aventura. E não é que está um céu limpo e um Sol radioso! Considero seriamente em tirar o impermeável. Cinco minutos antes das 10h, um elemento da organização faz o briefing, na linha da partida em voz, para 600 pessoas... Bem pode ter dito coisas super importantes como por exemplo que iam ser implacáveis com os tempos de passagem limite, mas eu, e praticamente todos os que estavam a mais de 5m do elemento da organização, não ouvimos nada...
Tudo a postos!
De forma quase implícita, quatro de nós, decidimos que iríamos tentar fazer a prova juntos, se bem que o elo mais fraco desta cadeia era "moi meme". Finalmente são 10h e o Miguel, o Pedro, o Serradas e eu começamos a nossa prova(ção). Os km's iniciais são feitos pelas ruas de Miranda. Primeiro por ruas largas de alcatrão e depois progressivamente por ruelas mais estreitas em empedrado. Prosseguimos por estrada quase 5km e chego a comentar que já tinha feito provas de estrada mais curtas... Mas pelo menos deu para esticar bem o pelotão e a verdade é que acabei por, em toda a prova, não ter grandes congestionamentos.

Antes de sairmos da vila passamos por um parque urbano circundado por um ribeiro que agora parece um rio de águas bravas. O parque está transformado num enorme lago onde só é possível ver o topo dos equipamentos infantis. Desde logo um "bom" prenuncio do que nos espera...
Em alcatrão até pareço um atleta!
A entrada em trilhos é feita de forma muito progressiva, primeiro por um estradão com algumas poças que progressivamente se ia afunilando e tornado num barranco de lama. Começam a aparecer as primeiras subidas mas ainda perfeitamente corriveis. Ultrapassamos inúmeros atletas que optam por começar desde logo a andar. Começo a sentir calor e dispo o impermeável.

Mas ao 7km embrenhamo-nos completamente na Serra da Lousã e em todas as dificuldades que 3 dias de chuva intensa lhe adicionaram. Os trilhos transformaram-se em autênticos ringues de lama que a trupe de atletas da frente ajudou a transformar numa papa viscosa. Por mais de uma vez sinto a sapatilha a querer sair do pé e tenho de começar a fazer ganchinho para não a perder. Seguimos junto a um ribeiro que atravessamos inúmeras vezes. Saltos e mais saltos que as pernas frescas ainda permitem. Acabou por ser um óptimo momento didáctico e acho que aperfeiçoei a minha técnica de saltos. Embora com dificuldade conseguimos manter um ritmo aceitável fruto do pouco desnível. Mas também isso é algo que pouco dura e ao 10km começamos a primeira subida.

Nos 3km seguintes, a acumular às dificuldades já referidas, começam a surgir paredes de lama que temos de escalar. Aqui vale tudo, mãos, raízes, ramos, pedras, empurrar o rabo do colega da frente, ser empurrado. O ritmo começa a baixar e baixa ainda mais quando começamos a ser ultrapassados pelos primeiros atletas da prova dos 25K. Sempre que sinto alguém nas minhas costas paro e cedo passagem.
Vamos lá equipa! E impermeável na mochila que já tinha dado para aquecer.
Chegamos a Corujeira e ao topo da primeira subida. Os escassos metros em alcatrão que fazemos na aldeia são um desanuviar para as pernas e cabeça. Passamos por uma placa que diz "Posto de Controlo" mas está deserta.

Começamos a descer, e se a subida tinha sido difícil, a descida foi surreal. Para mim sempre foram mais difíceis as descidas técnicas do que as subidas. E nestas condições estava completamente fora do meu elemento. Primeiro muito a medo, mas depois lá me fui libertando e entre escorregadelas e algum ski acabou por ser um dos segmentos mais divertidos da prova. A meio da descida a temperatura começa a baixar muito repentinamente, e após um trovão assustador começa a cair granizo. Arrependo-me de ter tirado o casaco mas, no meio da descida, não há nada a fazer a não ser levar com o gelo nas trombas e esperar que passe.

O primeiro abastecimento chega ao 14,5km (estava anunciado ao 13km) com 2h15m. Não é fantástico mas tem o que é preciso. Pego numa banana, um tomate com Sal e encho a garrafa com isotónico. Até aqui quase não bebi nenhuma da água que transporto. Ficamos muito pouco tempo mas aproveito para voltar a vestir o impermeável.

Retomamos o percurso com o ataque ao topo da Serra, e regressam os obstáculos. Trilhos e mais trilhos super técnicos. Sempre com os pés dentro de "água" e com poucas oportunidades de correr para aquecer. No meio dos meus pensamentos a descrição que me vêm à cabeça é que por comparação isto faz parecer Monsanto num dia de tempestade um citytrail...
Ilustração da definição de "trilhos corriveis" nos Abutres. 
Já na crista da Serra apanhamos com a segunda dose de granizo, mas desta vez com impermeável até acho alguma piada. O pés parecem dois tijolos e assusto-me a sério quando, após olhar para o relógio e verificar que não como nada há quase 2h, decido ingerir uma barra. As mão não me respondem e só com muita dificuldade consigo abrir o pacote. Embora não sinta frio, tenho as mãos geladas. Começo a abrir e fechar as mãos para tentar activar a circulação e embora não recupere também  não ficam piores.

Chegamos ao segundo abastecimento,Mestrinhas, com 23,5km e 4h15m (estava anunciado 22km). Aqui estava muito frio e quando chegamos vimos vários atletas embrulhados nas mantas térmicas. Nunca tinha visto tanta manta térmica. Sigo a mesma ementa do abastecimento anterior mas acrescento Coca-cola, estava precisar de algo doce e da cafeína. Um dos voluntários avisa que já foram evacuados pelo menos 10 atletas e que estão outros tantos ali à espera. Fico ainda mais assustado e apresso o pessoal para seguirmos. Mas o Serradas não está nos seus dias e diz para seguirmos porque precisa de mais alguns minutos.
Afinal também haviam trilhos "normais" e a organização colocou lá um fotografo para o comprovar!
Algo contra vontade lá seguimos e mesmo antes de atingirmos o ponto mais alto da serra começo a ver pequenos flocos de neve a cair, que se transformam em água mal tocam o solo. A visibilidade é muito baixa e embora já as ouvíssemos há algum tempo apenas quando estávamos debaixo delas é que conseguimos ver as eólicas.

Pela primeira vez olho para o relógio para fazer contas. Estamos no início da descida, com 25km e temos 4h35m de prova. Teoricamente teríamos 55m para correr 4km, a descer. Mas se a prova estava a ser muito técnica e difícil até ali, aquele km's seguintes foram completamente infernais. A descida seguia por um trilho junto às margens de uma ribeira, ora numa ora noutra, que atravessávamos por rústicos passadiços de tronco. No verão deve ser lindíssimo. Mas em Janeiro era um escorrega continuo de lama. O ribeiro seguia com uma força desmesurada arrastando tudo no seu leito com um barulho ensurdecedor. Perdi a conta às vezes que escorreguei, até porque o rabo era um apoio perfeitamente válido, assim como as mão, os cotovelos, os joelhos ou a testa...
A altimetria com os tempos limite...
Assusto-me muito a sério quando, numa curva, perco a tracção nos dois pés, caio lateralmente e vou deslizado em direcção do ribeiro. Felizmente consigo agarrar uma raiz e evitar um banho de imersão. Um pouco mais à frente, volto a escorregar, mas desta vez ao tentar recuperar o equilíbrio, estico demasiado o gémeo e tenho uma caimbra que me deixa KO durante alguns segundos. Perco o contacto com os meus companheiros mais rápidos (penso até com o filtro de sanidade levemente desajustado). Estou farto de single tracks! Quero um estradão para poder correr!

Sou ainda "salvo" por um atleta que seguia atrás de mim quando, ao sair de uma das "pontes",  me agarra pela mochila e evita que derrape margem abaixo. Obrigado! Alguns metros mais à frente é a minha vez de ajudar outro atleta a sair de dentro do ribeiro para onde escorregou numa outra "ponte". Dizem que é o espírito do trail.
Apenas mais um ribeiro...
A certa altura comecei a ouvir "Olha o copo!", jogo a mão à mochila e não sinto o meu copo. Paro e olho para trás, e quem é que lá está de copo estendido? O Serradas! Tinha recuperado e já me tinha alcançado.

Mas as maiores parvoíces perigosas de todo este segmento ainda estavam para vir. Em algumas provas de trail podemos observar quedas de água, nos Abutres temos de desce-las. O percurso descia por dentro do ribeiro umas centenas de metros, bem ao espírito do Canyoning. Nos primeiros metros ainda existia uma corda para ajudar, mas depois era à aventura. Obviamente que escorreguei e tomei um duche de água geladinha. Mas vendo bem o potencial da coisa até nem escapei mal. O mesmo não pode dizer um atleta que vi pouco depois da cascata. Estava deitado no chão embrulhado na manta térmica e já na companhia de dois ou três bombeiros.
A preparação para o duche...
Mas o "melhor" estava guardado para o fim do segmento. Um escorrega de lama com cerca de 200m. Já vi escorregas em parques infantis com menos inclinação. Lá fomos num sku controlado e muito cuidadoso. A meio do escorrega "sobe" a noticia que já fecharam o controle e que estão a barrar os atletas. Admito que nesse instante senti alivio. A frustração só chegou depois...

Chego ao posto de controle com 5h56m, 26min após o limite. A prova acabará, com 30km.

Pedem-me que entregue o Chip. Sem mais conversa ou explicação. Retiro e chip e é como se me estivessem a tirar uma parte de mim. Nunca antes tinha tido semelhantes sentimentos por uma quadradinho de plástico...

De repente estou rodeado por centenas de atletas, parece que todo o mundo ficou ali barrado. Muitas caras conhecidas de outras provas. Há muita frustração e indignação no ar com a decisão da organização de fazer cumprir rigorosamente o regulamento. Corre a história de quem tenha sido barrado por segundos e um grupo de espanhóis, especialmente sonoros, descarrega a frustração em vernáculo castelhano. Há quem queira continuar mesmo sem o chip (soube depois que houve quem o tivesse feito), mas depois lá conseguimos serenar um pouco e optar por voltar para o pavilhão. 

O mais irónico de tudo e um dos factos mais frustrantes era que eram 16h, estava Sol e ainda havia muita energia nas pernas. Podiam ter atolado o nosso ego, quebrado as nossas expectativas, privado-nos de ser "finisher" mas chegaríamos ao pavilhão de Miranda pelo nosso pé! Se não era por trilhos seria por alcatrão. Após confirmar com um bombeiro a estrada a seguir lá fomos nós fazer mais 5km e "fechar" o track. Mal começámos a correr uma dezena de outros atletas viram-nos e acompanharam-nos neste segmento final.
A caminho de Miranda sem ego chip.
Estávamos tão bem que ainda demos um voltinha extra em Miranda só para ir subir a famosa rampa final e entrar no pavilhão pela pórtico de chegada. Chegámos mesmo a tempo de ver a elite feminina a chegar e passar cabisbaixo  pela mesa com os sapatinhos "finisher".

No nosso grupo nem todos fomos barrados e ainda ficámos algum tempo à espera das máquinas! Todos os que terminaram o Abutres este ano são elite e têm todo o meu respeito! Parabéns!
E por fim a minha foto favorita: a chegada da grande equipa!
Muito obrigado aos meus companheiros, pelas fotos, pelo filme mas acima de tudo pela companhia, motivação e paciência. E deixei o melhor para o fim! O Pedro e o Miguel para além de irem sempre a puxar ainda conseguiram ter disponibilidade para filmar e tiveram a mestria de montar um video todo catita que aqui partilho.


O balanço final não é, obviamente, muito positivo. Foi sem dúvida uma grande aventura, a mais "extreme" que alguma vez fiz. Adorei os km's onde consegui efectivamente correr. Mas acho que a organização saiu muito mal na fotografia. Tinha tudo para ser uma prova irrepreensível em termos de organização, mas não é aceitável que quase metade dos atletas tenham sido barrados. Não estou a falar de pessoas inexperientes e mal preparadas, vi muitas caras bem conhecidas da modalidade na Srª da Piedade. Com a égide da "segurança" dos atletas acho que as decisões tomadas foram mais no sentido da "segurança" da organização. 

Apesar de, tal como a organização referiu, estar a chover intensamente na Serra à três dias, ficou a sensação que não havia um plano B. O adiamento em duas horas colocou uma pressão enorme nos tempos limite desde logo muito exigentes. 

Depois a alteração no percurso. Devido ao elevado caudal no rio foi necessário alterar a parte final da prova, até aqui a organização esteve muito bem. Mas em vez de encurtar, decidiu acrescentar os km's no início pelas ruas de Miranda. Foram 1,5km a mais como se verificou na distância para todos os abastecimentos. Não é que os 10min tivessem algum impacto na minha prova, mas quem foi desclassificado por segundos tinha razões para se queixar. O segmento das Mestrinhas para a Srª da Piedade nas condições em que se encontrava era demasiado perigoso, sendo que tinha dois pontos estupidamente perigosos. É verdade que estavam pessoas da organização em ambos os pontos, mas acho que eram perfeitamente evitáveis e a prova não perderia a mística sem aquelas duas descidas.

Fiquei com a sensação que a organização só pensou nas elites e no campeonato. Optou por não cancelar a prova e garantiu que a elite chegava para aparecer na TV. O resto do pelotão? Azar. Para o ano há mais e as inscrições irão esgotar ainda mais depressa.

Não resisti e fui olhar para os resultados. O primeiro atleta passou pelas Srª da Piedade com 2h59, o último, obviamente, com 5h30. Ora utilizando a "regra" do dobro do tempo do primeiro, 6h seria um tempo perfeitamente aceitável para se passar no controlo. Mais, o último atleta a chegar à meta fez-lo em 10h16, quase 3h antes do tempo limite para a prova! 

Se volto aos Abutres? Não sei. Talvez num ano de seca. Afinal temos de ser humildes e compreender que terminar os Abutres não é para quem quer. Fiquei chateado com a situação e afinal não é só nos Abutres que há Lousã...

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

E começou a chover...

E começou a chover...

Eu até sou um tipo optimista por natureza. Há até, quem exaspere com a calma com que às vezes encaro os contratempos. Mas nesta última semana começaram a surgir-me umas borboletas na barriga. À medida que tornava a reler relatos e rever videos de edições anteriores, as borboletas cresciam. E hoje começou a chover. E as borboletas transformaram-se em vespas asiáticas gigantes.

É "giro" como os mesmos textos e os mesmos filmes que há um ano atrás me pareciam uma fantástica aventura e um desafio de sonho, surgem agora como quasi-estórias de terror e sofrimento. Não consigo perceber como é que o meu sub-consciente eliminou a lama, as quedas e todas as referências ao trail mais "hard" que os "Hard Trail"...

É como ver o video de apresentação desta 5ª edição: paisagens de sonho, single tracks verdejantes e secos, sol... 

E depois ver o extraordinário video do astrodeckStudio da edição do ano passado: lama, chuva, dureza no seu estado mais puro...

Dizem que os Abutres são a meca do trail em Portugal, se calhar devia ter ido primeiro visitar umas capelas mais pequenas... Agora não há volta a trás... Sábado vou "correr" um dos trails mais duros de Portugal sob condições meteorológicas muito adversas... Tudo para correr bem, portanto.

Não queria terminar sem atribuir culpas, sim porque de certeza que não foi minha! Queria culpar os bloggers e os realizadores por criarem na Internet uma aura de quase magia que fazem esta prova de inscrição quase obrigatória. Depois queria culpar a malta do Esquilos, que com os seus testemunhos criaram em mim um desejo insaciável de ir "correr" este desafio. E por fim, queria culpar a minha filha Mafalda, que no dia 3 de Novembro me acordou a chorar às 4h da manhã e assim me permitiu, efectivamente, inscrever-me!

Queria apenas deixar estas breves linhas para quando, numa futura ocasião, estiver a considerar inscrever-me no Inverno numa prova no limiar das minha capacidades, TOMAR JUÍZO E LEMBRAR-ME DO STRESS EM QUE ESTOU!
Mantra para sábado: "Não vou ser carcaça para os Abutres!"
PS - Será que o meu frontal é suficientemente impermeável???  Bom por outro lado tenho a certeza que vou ficar "curado" das minhas peneiras sobre molhar os pés...

terça-feira, 22 de julho de 2014

Ultra Trail Monte da Lua - Video Blog

 

Arribas do Cabo da Roca - 0 
Eu - 4

Após 8h50m completei a minha segunda Ultra pela Serra encantada de Sintra. Maior em distância e subida acumulada e largamente a prova de trilhos que mais desfrutei. Sempre em excelente companhia! Obrigado Sílvio!

E não, não vou alterar a linha editorial do estabelecimento. Os relatos escritos permanecerão a ser o core business, mas a realidade é que eu continuo uma lesma a escrever e o relato desta prova só deve sair lá para o Outono. Por isso, e  para fazer inveja ao pessoal que não foi, deixo aqui o registo video (montado às três pancadas).


segunda-feira, 23 de junho de 2014

28ª Escalada do Mendro - 8 Junho 2014

Após alguns anos a participar em provas de corrida, finalmente corri uma no meu distrito. No dia 8 de Junho fui à Vidigueira fazer a 28ª Escalada do Mendro.

Desde que tomei conhecimento da prova no ano passado no blog do Sílvio que fiquei com vontade de participar. E este ano, com muito boa vontade dos meus sogros que ficaram com a mais pequena, fomos em família "escalar" o Mendro. Eu na versão corrida e a Inês e a Margarida na versão caminhada. Devo confessar que estava muito apreensivo em relação à caminhada, afinal ainda eram 8km, com algum desnível, por caminhos de terra e a Margarida já tem 4 anos.
O evento familiar! Tive que ceder a minha badana à pequena, ela disse logo que lhe ficava melhor que a mim...
Mais uma vez fui para esta prova com o Sílvio. Chegámos cedo e depois de levantarmos os dorsais ficamos por ali a confraternizar. Como era de esperar vimos algumas caras conhecidas, quer de outras provas quer de pessoas de Beja. Ainda tentei dar um crash training ao Sílvio de como operar a máquina de filmar mas infelizmente ainda não foi desta. A ver se em Sintra a coisa finalmente sai, porque os vídeos são agora parte integrante deste blog! E por falar em vídeos, não sei se reparam mas a última imagem do post de Geneva não é uma foto é um filme! É que embora o post tenha o número habitual de visualizações o video só tem meia dúzia... Por isso desta vez decidi colocar o vídeo logo aqui! 

A caminhada partiu meia hora antes da corrida, isto é, a sua partida simbólica. Porque após alguns metros os caminhantes entraram num autocarro que os deixou mais perto do Mendro, afinal a caminhada eram 8km e a prova 11km. Elas lá foram e a Margarida estava toda entusiasmada!
A partida simbólica e a alegria da Margarida!
Antes de fazermos o controlo zero ainda fomos fazer um pequeno aquecimento. Já não fazia aquecimento antes de uma prova há séculos, mas afinal era uma prova curta e acabou por ser uma óptima ideia do Sílvio tendo em conta o momento alucinante que foi a partida. O controlo zero era efectuado ao entrar dentro do recinto das Piscinas Municipais, após o qual os atletas se juntaram num portão que eu julgava ser a partida. Achei um pouco estranho que, sem grande anúncio, abrissem o portão e a malta começa toda a correr. Corremos uns 100m e parámos, afinal a partida não era no portão mas sim num pórtico. A passagem pela piscina era mesmo só para o controle.

Os primeiros km foram alucinantes. Numa prova curta, com muitos prémios monetários e portanto com gente muito experiente e o facto de ser em alcatrão provocou um pico de adrenalina que nos levou a fazer o 1ºkm em 4'16 e o 2º em 4'30, sendo que nos primeiros 500m a média foi inferior a 4'/km...

No 2ºkm deixámos o alcatrão e começamos finalmente a subir por caminhos de terra. O ritmo desce um pouco mas não muito e lá seguimos num carrossel de sobe e desce. No 4ºkm a subida começa a apertar e opto por andar alguns metros, provavelmente poderia ter forçado um pouco e mantido o passo de corrida, mas há valores mais altos do que acabar uns segundos mais rápido...
O sobe e desce do percurso.
O "meu" Alentejo!

Mesmo antes de chegarmos às antenas do Mendro começamos a ver o caminhantes já a descer em sentido oposto. E este é um dos pontos fortes desta prova. Pelo facto de irmos em direcção oposta à caminhada, não só não há engarrafamentos como temos "público" em grande parte do percurso que puxam pelos corredores.

Após o último esforço alcançámos finalmente as antenas e, após um abastecimento de água, iniciamos a nossa descida. Ainda as minhas pernas estavam a mudar de chip quando vi as minhas caminheiras! Grande festa e siga que agora é sempre a descer! Fiquei mais descansado, parecia que estavam bem e surpreso uma vez que ainda tinham bastante gente atrás delas.
As minhas caminheiras!
Uma das grandes melhorias que tenho sentido dos treinos em Monsanto é o facto de estar mais confiante nas descidas, e isso notou-se bastante nesta prova. Ataquei a descida e seguimos em grande ritmo. Por esta altura a caixa da máquina de filmar ficou embaciada e infelizmente todas as filmagens desta parte ficaram inutilizadas. Passámos junto de uma pequena barragem e até tivemos de atravessar um curso de água! Sim no Alentejo também há água... Ok, tinha uns milímetros e nem sequer precisávamos de sujar as sapatilhas.
Sempre em grande ritmo! (Foto da CMV)
O 9ºkm é feito por um caminho com alguma areia mas que não me incomodou nada, até porque neste ponto somos ultrapassados por uma senhora que tentava em esforço alcançar uma outra senhora uns metros mais à frente. Entro no ritmo dela e seguimos assim lado a lado durante alguns km's. 


Regressamos à Vidigueira e consequentemente ao alcatrão. Reduzo um pouco o ritmo e pergunto ao Sílvio se dá para fazermos um sprint até à meta. Ele já está muito perto do limite e diz para eu seguir, mas acaba por conseguir dar mais qualquer coisa porque acabou apenas alguns segundos depois de mim. No meu sprint final acabo por picar 2 atletas que quando me vêm desatam a sprintar que nem loucos, já na entrega de prémios percebi que estavam a lutar pelo prémio para os atletas do concelho.

Foram 11.3km com 200m de D+ em 57m40s, o que resultou no 128º lugar em 215 que terminaram a prova.
Já está! Obrigado Sílvio, grande prova!
Após recuperar uns segundos coloquei-me de novo a caminho em sentido oposto para procurar o resto da família. Encontrei-as à entrada da Vila todas contentes e frescas! Tornei a passar a meta, desta vez com a minha heroína que fez todos os 8km com as suas perninhas.
As grandes atletas!
A foto de família!
 Depois foi tempo de ir dar um banho nos balneários da piscina que, em comparação com as instalações da Corrida do Monge (que pertence ao mesmo circuito que esta) eram um luxo! Um balneário espaçoso e água quente.

Mais uns minutos de espera novamente à porta da piscina desta vez para aceder ao parque de merendas onde seria servido o almoço. Um belo rancho acompanhado de pão alentejano e vinho à descrição! Ali ficámos em confraternização e acabámos por assistir à entrega de prémios, que eram monetários e em grande número.
O repasto...
Foi um dia muito bem passado. Com desporto, confraternização, almoço e lembranças e tudo isto por 5 euros... Definitivamente a repetir em 2015!
Obrigado!

domingo, 18 de maio de 2014

IV Ultra Trail de Sesimbra - 03 Maio 2014

Chegara finalmente o dia. Hoje ia correr uma Ultra Maratona, a minha primeira. Parecia que tinha passado uma eternidade desde o dia em que o Sílvio começara a semear a ideia. Mais de seis meses em que sem fazer exactamente uma preparação especifica mudei completamente o chip, puro estradista para um curioso dos trilhos. Hoje ia testar limites. Hoje ia sofrer. Hoje ia ser muito feliz...

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Muito antes de me inscrever nesta prova já andava a preparar a logística associada. A ideia sempre foi levar a família toda e aproveitar o fim de semana para conhecer Sesimbra. Embora já tivesse passado pela vila nunca a tinha efectivamente visitado. O problema é que organizar a estadia para 4 incluindo uma pulga eléctrica de 4 anos e um bebé de 5 meses não é nada fácil, ainda para mais que a minha adorada e muito prestável esposa teria que as aguentar durante todo o dia da prova...

Sesimbra é adorável e com o tempo que apanhámos parecia uma estância balnear de luxo. A família gostou muito do hotel, principalmente da piscina...
Vista da piscina do Hotel no 6º andar...
Ás 6:30 saio da cama e vou silenciosamente preparar-me. E aqui começam as indecisões... levar a tshirt de compressão ou uma tshirt mais leve, levar o boné ou a badana... Com tantas indecisões demoro demasiado tempo e chego ao pequeno almoço já atrasado. Como se não bastasse esqueço-me do dorsal no quarto. Corrida hotel acima e stress pré-prova... Nada bom.

Já com o estômago mais confortado dirigimo-nos para a zona da partida. Acabámos por chegar com bastante tempo e ficámos ali na conversa a apanhar o sol da manhã. Mais tarde iríamos querer fugir de tanto sol mas às 7:30 estava a saber bem! Encontrámos várias caras conhecidas de Monsanto e de outras aventuras. Eu fui surpreendido por dois colegas do trabalho que não sabia que também andava nestas coisas.
Sim, sorriam para o Sol que mais tarde logo choram...
Depressa percebi que ia haver confusão com a partida. Como cheguei de véspera fui logo levantar o dorsal na sexta à noite e, mesmo com tempo, não foi fácil chegar desde a praia até ao local da entrega dos dorsais que ficava na recepção do Hotel do Mar. Quem ia levantar os dorsais no dia tinha logo uma longa e stressante caminhada para aquecer. Acabámos por sair com 10 min de atraso.

Na entrada para o "garrafão" da partida são verificados os equipamentos obrigatórios. Eu não estava à espera que a verificação fosse tão minuciosa e fiquei um pouco atrapalhado. A malta começa a amontoar-se e a adrenalina começa a bombar. Contagem decrescente e lá começa a epopeia!
3, 2, 1... Vamos a isto que os 52km não se correm sozinhos.
O primeiro km, em alcatrão e com as pernas frescas é uma beleza. Uma pessoa tenta não se entusiasmar mas entre a adrenalina e o instinto de rebanho lá vamos nós em torno dos 5'30/km. Mas depressa chegamos à primeira subida, e embora seja perfeitamente corrivel começa o jogo a que chamo: não vou ser o primeiro a andar. Quando sabemos que já devíamos ir a passo mas porque toda a gente à nossa volta ainda corre, corremos mais um pouco.
"Primeira subida" ou "Vamos lá ver quem começa a andar primeiro..."
Depois da experiência de Almourol, o nosso plano era simples: sempre que inclinasse por muito pouco que fosse passaríamos a andar. Nas descidas e em terreno plano correríamos. O problema é que nos primeiros 20km, terreno plano era algo muito escasso.

São 20km em que perdi a conta às arribas que descemos e tornámos a subir. A progressão era difícil e algumas vezes perigosa. Na minha memória ficou uma descida em que tinham espalhado gravilha grossa e mesmo assim parecia que estávamos a fazer ski... Curiosamente nunca tivemos de esperar para ultrapassar obstáculos, o número de atletas reduzido e o facto de irmos já bastante espaçados facilitou a passagem. Era-mos um enorme carreiro de formigas coloridas.
Sempre ladeados de grande paisagens seguíamos o carreiro colorido.
Arriba acima...Arriba abaixo...
Passámos no 1ª abastecimento, só de água, sem parar e seguimos directamente para o 2º no 9km. Este abastecimento, como de resto em todos, tínhamos um autêntico banquete à nossa espera, com muita variedade e quantidade e a simpatia dos voluntários. Acabei por não tocar na comida que levei. Ficámos neste abastecimento cerca de 5 minutos.

A minha estratégia para esta prova em termos de abastecimentos era simples: manter a bolsa sempre cheia de água, levar uma garrafa com isotónico que enchia em cada abastecimento, beber o máximo que conseguia no local e comer sempre uma banana temperada com um pacote de sal. Muito sal comi eu neste dia, perdi a conta aos pacotes mas a verdade é que não tive caimbras! :)
O 2º Abastecimento: vai uma banana com sal? :)
Mal deixámos o abastecimento encontrámos a descida mais vertical e perigosa de toda a prova. Perdemos quase 100m de altitude em pouco mais de 120m. Grande parte da descida era constituída por gigantescos degraus em que era necessário a utilização dos 5 apoios! Sempre ladeados por um muro de cimento com uns postes que ajudavam a dissipar alguma velocidade. Foram 6 minutos muito tensos em que a concentração tinha de ser total. E no último metro de descida os pés do Sílvio falham e caí com o 5º apoio no chão. Na altura pensei que tivesse sido apenas um susto, uma vez que queda tinha sido para trás e devido à inclinação o terreno estava logo ali. Só uns metros mais à frente é que me mostrou os braços e vi que as feridas não tinham bom aspecto...
A meio da "descidinha" junto ao muro, esta parte já estava...
Só faltavam esta...
Já me tinha apercebido que a malta de Monsanto costumava imprimir o perfil vertical da prova com a indicação dos abastecimentos para levar no dia, e por isso decidi também eu fazer o mesmo. E o jeito que aquilo deu! Muitas foram as vezes que o consultámos, qual oráculo divino, e nos ajudou a manter a motivação para chegar até ao próximo abastecimento. Nesta fase fizemo-lo várias vezes... As feridas do Sílvio teimavam em não estancar e precisavam de ser tratadas urgentemente. Foi a primeira fase negra da prova.

Continuámos sempre junto ao mar ao sabor das arribas. A disposição não era a melhor mas lá animámos um pouco quando começámos a ver o farol a aproximar. Sabíamos que a parte mais técnica da prova ficava nos primeiros 20km e que o Espichel marcava o seu fim.
Promontório do Cabo Espichel de um ângulo diferente.
3º abastecimento, 16km, 3 horas. Até aqui as minhas previsões de tempo ainda estavam correctas...
Bem junto ao farol, no 16km e com 3 horas de prova, encontramos o 3º abastecimento. Mais do mesmo e vá de sal para o bucho. E aqui surge, para mim, uma falha da organização que de resto esteve impecável. O Sílvio precisava de limpar e estancar as feridas e, embora estivessem inclusive bombeiros no local, não havia material de primeiros socorros. Lá limpou o melhor que pode com água mas uma das feridas estava difícil de estancar. Ficámos neste abastecimento cerca de 6 minutos.


Com o abastecimento e o terreno mais rolante o espírito do Sílvio melhorou um pouco e conseguimos fazer 2km sempre a correr, o 19km foi inclusive o km mais rápido de toda a prova. Com os caminhos mais largos começaram a ser possíveis as ultrapassagens, e sempre que nos cruzávamos com alguém lá trocávamos umas palavras de incentivo. Foi muito divertido porque às tantas as caras eram sempre as mesmas, ora passávamos nós, ora éramos ultrapassados e nos abastecimentos voltávamos a baralhar as posições.
A passagem pelo Santuário, com alguma pena o caminho não era pelo interior mas por um caminho lateral. 
Aqui em plena confraternização com um casal muito animado  (foto de Ricardo Taxa).
E ao 20km encontrámos a variável inesperada e que veio complicar as nossas contas e as nossas pernas: Areia. Não é que eu tivesse preparado esta prova até à exaustão, mas li alguns relatos e vi alguns vídeos e em nenhum constatei que teria de ir preparado para atravessar um deserto! Começou devagar. Uma subida de areia fina aqui, um planalto acolá. Aqui ainda tentámos correr mas depressa percebemos que era um esforço inglório.

Depois de mais uma descida a pique chegámos a uma lage de pedra enorme ao nível do mar. Seguimos sobre a lage até que alcançamos uma praia deslumbrante, a Praia da Foz, onde se encontrava o 4º abastecimento no 24km. Alguns brincavam com a ideia de ir dar um mergulho enquanto outros efectivamente o concretizaram.
A linda e escondida Praia da Foz.
Com quase 4h30 de prova a minha previsão já estava a falhar (a previsão era 4h), mas ainda acreditava que seria possível recuperar. Felizmente neste abastecimento para além de todos os mantimentos que precisávamos (vá de banana com sal) e da simpatia dos voluntários, e embora não existisse mala de primeiros socorros, um dos voluntários tinha uma bisnaga de betadine. Foi o júbilo, enchemos os estômagos, o Sílvio tratou das feridas e o optimismo voltou em força! Devido às acções de enfermagem levámos 11 minutos neste posto.
Agora é que é, abastecidos e tratados vai ser sempre a bombar... ou talvez não...
Mas o optimismo esmoreceu rapidamente... O troços de areia são cada vez mais frequentes e a progressão cada vez mais lenta. E quando pensávamos que a coisa não podia ficar pior, no 26km, chegamos à praia do Meco e começa um calvário de areia. As marcações levam-nos pelo sistema dunar do Meco. Sempre a passo os km parecem que não passam. Os pés cheios de areia e às 13h da tarde o Sol começa finalmente a incomodar-me.
A famosa Praia do Meco que será sempre por mim recordada como a Infame Praia do Meco.
Este é para mim o troço mais complicado, quando a cabeça começa a acumular dúvidas. Lembro-me de pensar: "Marathon des Sables, Jamais!" e começar a rir sozinho :)

O martírio prolonga-se até ao 30km onde encontramos finalmente o 5º abastecimento sob a sombra de uns pinheiros, qual oásis no deserto. Foram 1h10m para percorrer pouco mais de 6km.
Deserto? Não, é apenas o sistema dunar do Meco...
Areia e mais areia numa sucessão capaz de arruinar os espíritos mais optimistas. 
Este abastecimento parecia uma zona de guerra. Havia gente sentada pelo chão por todo o lado a tirar a areia dos sapatos ou simplesmente a descansar à sombra. A minha prioridade foi retirar a tonelada de areia que tinha nos pés, até porque, assim descansava um pouco. Só depois fui para a mesa da comida e para minha surpresa este abastecimento era ainda melhor que os anteriores. Comi uma sandes de paio que me soube a ginjas. Neste posto vimos muita gente a desistir, nunca antes tinha visto tanta gente a desistir simultaneamente e foi algo desanimador. Ficámos neste abastecimento durante 15 minutos...

Mesmo antes de deixarmos o posto deu-me aquela sensação de faltar alguma coisa, mas não me consegui lembrar. Era tirar fotos! A partir das dunas a máquina foi para o bolso e foram muito escassas as vezes que saiu.

Já a caminho tentei telefonar à minha mulher. Tinha-lhe dito que deveria levar umas 8h (hahaha) mas neste ponto (30km com  5h45 de prova) era evidente que tal não iria acontecer e queria deixa-la mais descansada. Mas entre ela não atender à primeira e a ausência de rede acabei por não conseguir falar.
Sem dunas  mas ainda com muita areia...
Deixámos finalmente a praia para trás mas não a areia... Os km's seguintes foram "andados" pelo pinhal entre a praia e a aldeia do Meco. Embora o caminho fosse sobretudo por estradões, na maior parte das vezes a areia era tanta e as forças poucas para se efectivamente correr.

Por esta altura o Sílvio começa a ficar com algumas dificuldades e foi-se abaixo psicologicamente. Eu bem tentava animar e dizer umas graçolas, mas a coisa estava a ficar bastante negra. Numa das minhas tentativas recordei a altura em que nos conhecemos no desafio para comemorar o seu 31º aniversário e disse que teríamos de tirar uma foto quando chegássemos ao 32km para fazer a comemoração deste ano! 
Não sei se dá para perceber mas estamos a fazer um 32 com as mãos...
A cada km que passava via o Sílvio a ficar mais em baixo e temi que ele ficasse no próximo abastecimento.

E eis que, com 7h de prova e 37km, no meio do caminho vimos uns pinos coloridos no chão. Ao principio pensei que fossem marcações de uma outra prova, mas depois oiço chamarem por nós e vimos o 6º abastecimento debaixo de um telheiro.

Este sim era um verdadeiro abastecimento reforçado, com canja, sandes e tudo mais. Dirijo-me imediatamente para a canja e pergunto ao Sílvio, que entretanto se tinha atirado para o chão, se também queria. E aquela canja para além de salgada (como se quer!) também devia ser mágica porque de um momento para o outro o Sílvio arrebita e está pronto para a acção. Ficamos no posto durante 22 largos minutos mas valeu bem a pena! Voltei a comer umas sandes de presunto divinais e deu ainda para refrescar junto de uma torneira que existia no telheiro. Estávamos prontos para a próxima etapa. Os voluntários informaram que o próximo abastecimento seria na Pedreira.
A caminho da Pedreira numa espécie de trote...
Com novo fôlego e o Sílvio com equipamento lavado, retomamos o caminho. Continuamos nos estradões durante mais uns km's, mas estes vão tendo progressivamente menos areia e tornado-se mais corriveis. Infelizmente as pernas não permitem grandes aventuras e nesta fase só é possível ensaiar um trote ligeiro quando a inclinação assim o permite.

Antes de regressarmos à serra passamos ainda por um lindo morangal. Que seria ainda mais lindo se eu não tivesse visto que, no fim do mesmo, teríamos que passar um pequeno mas impossível de evitar riacho... Depois de tanta areia nunca me passou pela cabeça que ainda teria de molhar os pés... Como sabem eu "adoro" correr com um saco de água em cada pé, que é no que se transformam as minhas sapatilhas quando tal acontece... Mas eu prometi que nunca mais me queixava e por isso todo este parágrafo não é uma queixa.
O lindo morangal imediatamente antes do infame riacho...
Perto do 40km quase nos enganávamos no caminho. Íamos uns 50m atrás de uns atletas e numa mudança de direcção eles continuam em frente e eu ia segui-los. Felizmente o Sílvio ia atento e evitámos o engano. Eu bem gritei aos outros atletas mas não sei se me terão ouvido. Neste aspecto a organização também esteve irrepreensível, as marcações estiveram sempre impecáveis.

O terreno voltou a ficar mais pedregoso e regressámos à serra entre o Espichel e Sesimbra. O terreno não permitia grandes aventuras mas depois do desespero de areia parecia uma pista de tartan. A cada km suspirávamos pela pedreira... E depois de uma descida quase vertical (na realidade até nem era assim tão íngreme mas no estado em que estavam as minhas pernas e a miufa que tenho das descidas parecia-me uma pista de saltos de sky) chegámos finalmente à entrada da Pedreira e ao 7º abastecimento.

Neste abastecimento voltámos a ver alguns atletas a desistir, mas ao Sílvio parece que lhe dão uma injeção de optimismo. Fazemos o abastecimento mais rápido até aí e em 3 minutos estamos a sair. 
Não, não me teleportei para outro planeta, é mesmo ali ao lado de Sesimbra.
Ao entrar na pedreira parece que estamos a entrar noutro mundo. É impossível não admirar a magnitude do local mas não deixa de ser um contraste demasiado berrante com o cenário de reserva natural por onde tínhamos deambulado até ali.

O Sílvio começa a ficar cada vez mais eufórico e só grita "Já cheira a Meta! Já cheira a Meta"". Na realidade estávamos a menos de 1km em linha recta da meta mais ainda teríamos que palmilhar mais 6km até lá chegar. Contagiado pela alegria do Sílvio telefono de novo à minha mulher para dizer que estávamos quase a chegar, mais 30m segundo o Sílvio... Obviamente levámos mais de 1h, afinal ainda faltava conquistar o último obstáculo, o Castelo.
Sempre com o objectivo à vista!
À medida que o tempo passa e o Castelo não há meio de aparecer, as baterias do Sílvio voltam a ficar em níveis críticos. Já tinha lido bastante sobre esta subida e sabia que, embora fosse íngreme, era relativamente curta. Só era preciso não desmotivar e, acima de tudo, não parar! Tomei a dianteira e coloquei um passo certo mas agressivo e gritando incentivos lá escalámos até ao Castelo.
Vamos lá! Já vejo o portão!
No largo do Castelo encontramos o 8º e último abastecimento. Mais parco mas com o essencial nesta fase da prova, água. Dois dedos de conversa com os voluntários e ala que se faz tarde e agora vai ser sempre a descer. Voltámos a gastar 3 minutos neste posto.
Agora é sempre a descer!  "Isto agora é como em Monsanto!"
Saímos do Castelo por uma porta nas traseiras e embrenha-mo-nos nuns single tracks pelo meio de uma floresta. O Sílvio, novamente cheio de motivação grita: "Isto agora é como em Monsanto!". O facto de irmos a descer, à sombra e com fome de meta dá-nos a energia para colocar um ritmo mais vivo.
Voando a "alta" velocidade pelo trilho que a imagem até fica desfocada.
Depois do que me parece uma eternidade chegamos finalmente à vila. Ainda ficamos ali uns segundos sem saber exactamente por onde é o caminho mas alguém nos grita que é pelo passadiço da praia. 

Um mar de emoções passam pela minha cabeça ao correr naquele passadiço. Tínhamos conseguido! Íamos acabar a nossa primeira ultra, uma verdadeira prova de equipa. Depois de 9h40 a torrar ao Sol o espírito tinha ganho sobre o corpo. Sem termos combinado agradecemos um ao outro esta aventura e felizmente captei esse momento que resume o espírito desta equipa.
Já está! Obrigado Sílvio!
Última curva e a meta está a dezenas de metros. De entre a multidão a minha filha desata a correr em minha direcção e recebe-me como um herói. Dou-lhe a mão e corremos juntos os últimos metros da prova. Mas no último segundo dá-lhe a vergonha e volta para a mãe que com o rebento mais novo espera por mim junto à meta. Segundo ela teve vergonha que o senhor dissesse o seu nome e pensasse que tinha feito a prova.
Papaaaa, Papaaaa!
Foi de longe o meu maior desafio até agora. Quer pelo record de distância, 52km, record de tempo, 9h40, quer pelas condições atmosféricas, com um dia abrasador. No final a minha tshirt estava branca, tal era a quantidade de sal que tinha transpirado. Começaram esta prova 244 atletas, mas na classificação final figuram apenas 186, sendo que terminei na 147ª posição. Sozinho muito dificilmente teria conseguido terminar e quero deixar aqui o meu muito obrigado ao meu grande companheiro pela companhia, motivação e espírito de superação com que me contagiou. Curiosamente, ao contrário de Almourol, em nenhum momento tive as habituais questões filosóficas do tipo "que estou eu aqui a fazer" ou "não tenho vida para estas distâncias". Acho que fiz as pazes com as ultras... :)
SOMOS ULTRAS!
O último parágrafo deste "curto" relato é dedicado à minha família. Principalmente à minha mais que tudo, que atura esta minha pancada e, com uma paciência infinita, segue-me nestas aventuras. Obrigado são a minha alegria.

 PS- Se chegaram a este ponto já perceberam que para além de ter ficado super entusiasmado e querer recordar todos os pormenores desta aventura, desta vez tenho montes de fotografias! O motivo e um video todo catita podem ser vistos aqui.