terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Ultra Trilhos dos Abutres - 31 Janeiro 2015

DNF...

Pela primeira vez não terminei uma prova que tinha iniciado. DNF, não por decisão ou lesão, mas porque não consegui cumprir, ao 30ºkm, o tempo de passagem intransigentemente respeitado pela organização. Esta foi uma prova indescritível. Todos os relatos e vídeos que li e vi não me prepararam para aquilo que vivi em Miranda do Corvo. Trail brutal, extreme em condições atmosféricas difíceis que várias vezes me fizeram duvidar da minha sanidade mental em voluntariamente ter-me colocado na linha de partida. Mas, acima de tudo, foi uma aventura inesquecível na companhia de malta fantástica. Posso não ter trazido o sapatinho para casa, mas trouxe uma história e uma mão cheia de novos amigos.
Adoro esta foto! Tudo animado e cheios de vontade de atacar os Abutres!
Toda esta aventura foi em grande parte uma novidade para mim. Começando logo com a logística. Com o início da prova marcado paras as 8h, sair no dia de Oeiras obrigaria a uma viagem demasiado "matinal", mesmo para os meus padrões. Deste modo decidi juntar-me a mais malta que habitualmente treina em Monsanto e fomos de véspera para mais uma estreia para mim, dormir no solo duro.

Mal chegámos a Miranda do Corvo fomos logo tratar do mais importante, jantar. Porque afinal de contas era preciso muita energia para enfrentar os Abutres. E o que mais se poderia comer na "Capital da Chanfana"? Foi um grande convívio onde juntámos uma mesa cheia de gente impecável. Mas, como em todo o fim de semana, o tempo corria e o secretariado fechava às 24h e não queríamos ficar "barrados".

Afinal chegámos bem a tempo e depois de uma verificação minuciosa ao meu CC lá me entregaram o dorsal e o saco das lembranças com a tshirt e um buff da prova. E não é que era mesmo um buff da Buff! Ainda deu tempo de passear brevemente pela feira e depois era hora da deita.
Montagem da "camarata" C14B.
Depois de tanta conversa sobre o solo duro, tal como para a prova, ia preparado para o pior. Ele era tampões para os ouvidos, leitor de MP3... Afinal foi super pacifico. O solo duro era nas salas de aula da escola básica ao lado do pavilhão. Devido à nossa chegada tardia foram necessárias algumas tentativas mas lá encontrámos uma sala vazia que se transformou na nossa camarata. A noite até nem se passou mal, tirando o facto de ter que me virar de 30 em 30 minutos porque ficava dormente. Cada vez que acordava ouvia a tempestade que se abatia lá fora.

Dormir com malta que habitualmente começa a treinar às 5:30 é lixado e às 6h já estava tudo levantado. A meio do nosso pequeno almoço recebemos a noticia do adiamento da prova para as 10h devido às condições meteorológicas. Agora já não havia nada a fazer e depois de arrumar o "quarto" fomos ansiosamente matar o tempo. O pavilhão fervia de actividade e os rumores eram mais que muitos: a prova ia ser cancelada, estavam à espera que os caudais baixassem, iam encurtar a ultra... E lá fora chovia copiosamente.
Já com a lição bem estudada afinavam-se as estratégias!
Poucos depois das 8h é anunciado que a prova irá mesmo começar às 10h e que os atletas podem começar a realizar o controlo 0. É ainda comunicado que se mantêm os 50km e será efectuado um briefing final antes do início da prova. Entretanto ficámos a saber que a 2ª metade do percurso fora alterado para evitar a passagem de um rio.
Ainda com o material na mão após o rigoroso controlo 0.
O pavilhão fervilhava de expectativa e após o mais rigoroso controle zero que já fiz lá nos preparamos para a partida. Nesta fase encontro muitas caras conhecidas e após um "Boa Prova" lá seguimos para a rua para iniciar a nossa aventura. E não é que está um céu limpo e um Sol radioso! Considero seriamente em tirar o impermeável. Cinco minutos antes das 10h, um elemento da organização faz o briefing, na linha da partida em voz, para 600 pessoas... Bem pode ter dito coisas super importantes como por exemplo que iam ser implacáveis com os tempos de passagem limite, mas eu, e praticamente todos os que estavam a mais de 5m do elemento da organização, não ouvimos nada...
Tudo a postos!
De forma quase implícita, quatro de nós, decidimos que iríamos tentar fazer a prova juntos, se bem que o elo mais fraco desta cadeia era "moi meme". Finalmente são 10h e o Miguel, o Pedro, o Serradas e eu começamos a nossa prova(ção). Os km's iniciais são feitos pelas ruas de Miranda. Primeiro por ruas largas de alcatrão e depois progressivamente por ruelas mais estreitas em empedrado. Prosseguimos por estrada quase 5km e chego a comentar que já tinha feito provas de estrada mais curtas... Mas pelo menos deu para esticar bem o pelotão e a verdade é que acabei por, em toda a prova, não ter grandes congestionamentos.

Antes de sairmos da vila passamos por um parque urbano circundado por um ribeiro que agora parece um rio de águas bravas. O parque está transformado num enorme lago onde só é possível ver o topo dos equipamentos infantis. Desde logo um "bom" prenuncio do que nos espera...
Em alcatrão até pareço um atleta!
A entrada em trilhos é feita de forma muito progressiva, primeiro por um estradão com algumas poças que progressivamente se ia afunilando e tornado num barranco de lama. Começam a aparecer as primeiras subidas mas ainda perfeitamente corriveis. Ultrapassamos inúmeros atletas que optam por começar desde logo a andar. Começo a sentir calor e dispo o impermeável.

Mas ao 7km embrenhamo-nos completamente na Serra da Lousã e em todas as dificuldades que 3 dias de chuva intensa lhe adicionaram. Os trilhos transformaram-se em autênticos ringues de lama que a trupe de atletas da frente ajudou a transformar numa papa viscosa. Por mais de uma vez sinto a sapatilha a querer sair do pé e tenho de começar a fazer ganchinho para não a perder. Seguimos junto a um ribeiro que atravessamos inúmeras vezes. Saltos e mais saltos que as pernas frescas ainda permitem. Acabou por ser um óptimo momento didáctico e acho que aperfeiçoei a minha técnica de saltos. Embora com dificuldade conseguimos manter um ritmo aceitável fruto do pouco desnível. Mas também isso é algo que pouco dura e ao 10km começamos a primeira subida.

Nos 3km seguintes, a acumular às dificuldades já referidas, começam a surgir paredes de lama que temos de escalar. Aqui vale tudo, mãos, raízes, ramos, pedras, empurrar o rabo do colega da frente, ser empurrado. O ritmo começa a baixar e baixa ainda mais quando começamos a ser ultrapassados pelos primeiros atletas da prova dos 25K. Sempre que sinto alguém nas minhas costas paro e cedo passagem.
Vamos lá equipa! E impermeável na mochila que já tinha dado para aquecer.
Chegamos a Corujeira e ao topo da primeira subida. Os escassos metros em alcatrão que fazemos na aldeia são um desanuviar para as pernas e cabeça. Passamos por uma placa que diz "Posto de Controlo" mas está deserta.

Começamos a descer, e se a subida tinha sido difícil, a descida foi surreal. Para mim sempre foram mais difíceis as descidas técnicas do que as subidas. E nestas condições estava completamente fora do meu elemento. Primeiro muito a medo, mas depois lá me fui libertando e entre escorregadelas e algum ski acabou por ser um dos segmentos mais divertidos da prova. A meio da descida a temperatura começa a baixar muito repentinamente, e após um trovão assustador começa a cair granizo. Arrependo-me de ter tirado o casaco mas, no meio da descida, não há nada a fazer a não ser levar com o gelo nas trombas e esperar que passe.

O primeiro abastecimento chega ao 14,5km (estava anunciado ao 13km) com 2h15m. Não é fantástico mas tem o que é preciso. Pego numa banana, um tomate com Sal e encho a garrafa com isotónico. Até aqui quase não bebi nenhuma da água que transporto. Ficamos muito pouco tempo mas aproveito para voltar a vestir o impermeável.

Retomamos o percurso com o ataque ao topo da Serra, e regressam os obstáculos. Trilhos e mais trilhos super técnicos. Sempre com os pés dentro de "água" e com poucas oportunidades de correr para aquecer. No meio dos meus pensamentos a descrição que me vêm à cabeça é que por comparação isto faz parecer Monsanto num dia de tempestade um citytrail...
Ilustração da definição de "trilhos corriveis" nos Abutres. 
Já na crista da Serra apanhamos com a segunda dose de granizo, mas desta vez com impermeável até acho alguma piada. O pés parecem dois tijolos e assusto-me a sério quando, após olhar para o relógio e verificar que não como nada há quase 2h, decido ingerir uma barra. As mão não me respondem e só com muita dificuldade consigo abrir o pacote. Embora não sinta frio, tenho as mãos geladas. Começo a abrir e fechar as mãos para tentar activar a circulação e embora não recupere também  não ficam piores.

Chegamos ao segundo abastecimento,Mestrinhas, com 23,5km e 4h15m (estava anunciado 22km). Aqui estava muito frio e quando chegamos vimos vários atletas embrulhados nas mantas térmicas. Nunca tinha visto tanta manta térmica. Sigo a mesma ementa do abastecimento anterior mas acrescento Coca-cola, estava precisar de algo doce e da cafeína. Um dos voluntários avisa que já foram evacuados pelo menos 10 atletas e que estão outros tantos ali à espera. Fico ainda mais assustado e apresso o pessoal para seguirmos. Mas o Serradas não está nos seus dias e diz para seguirmos porque precisa de mais alguns minutos.
Afinal também haviam trilhos "normais" e a organização colocou lá um fotografo para o comprovar!
Algo contra vontade lá seguimos e mesmo antes de atingirmos o ponto mais alto da serra começo a ver pequenos flocos de neve a cair, que se transformam em água mal tocam o solo. A visibilidade é muito baixa e embora já as ouvíssemos há algum tempo apenas quando estávamos debaixo delas é que conseguimos ver as eólicas.

Pela primeira vez olho para o relógio para fazer contas. Estamos no início da descida, com 25km e temos 4h35m de prova. Teoricamente teríamos 55m para correr 4km, a descer. Mas se a prova estava a ser muito técnica e difícil até ali, aquele km's seguintes foram completamente infernais. A descida seguia por um trilho junto às margens de uma ribeira, ora numa ora noutra, que atravessávamos por rústicos passadiços de tronco. No verão deve ser lindíssimo. Mas em Janeiro era um escorrega continuo de lama. O ribeiro seguia com uma força desmesurada arrastando tudo no seu leito com um barulho ensurdecedor. Perdi a conta às vezes que escorreguei, até porque o rabo era um apoio perfeitamente válido, assim como as mão, os cotovelos, os joelhos ou a testa...
A altimetria com os tempos limite...
Assusto-me muito a sério quando, numa curva, perco a tracção nos dois pés, caio lateralmente e vou deslizado em direcção do ribeiro. Felizmente consigo agarrar uma raiz e evitar um banho de imersão. Um pouco mais à frente, volto a escorregar, mas desta vez ao tentar recuperar o equilíbrio, estico demasiado o gémeo e tenho uma caimbra que me deixa KO durante alguns segundos. Perco o contacto com os meus companheiros mais rápidos (penso até com o filtro de sanidade levemente desajustado). Estou farto de single tracks! Quero um estradão para poder correr!

Sou ainda "salvo" por um atleta que seguia atrás de mim quando, ao sair de uma das "pontes",  me agarra pela mochila e evita que derrape margem abaixo. Obrigado! Alguns metros mais à frente é a minha vez de ajudar outro atleta a sair de dentro do ribeiro para onde escorregou numa outra "ponte". Dizem que é o espírito do trail.
Apenas mais um ribeiro...
A certa altura comecei a ouvir "Olha o copo!", jogo a mão à mochila e não sinto o meu copo. Paro e olho para trás, e quem é que lá está de copo estendido? O Serradas! Tinha recuperado e já me tinha alcançado.

Mas as maiores parvoíces perigosas de todo este segmento ainda estavam para vir. Em algumas provas de trail podemos observar quedas de água, nos Abutres temos de desce-las. O percurso descia por dentro do ribeiro umas centenas de metros, bem ao espírito do Canyoning. Nos primeiros metros ainda existia uma corda para ajudar, mas depois era à aventura. Obviamente que escorreguei e tomei um duche de água geladinha. Mas vendo bem o potencial da coisa até nem escapei mal. O mesmo não pode dizer um atleta que vi pouco depois da cascata. Estava deitado no chão embrulhado na manta térmica e já na companhia de dois ou três bombeiros.
A preparação para o duche...
Mas o "melhor" estava guardado para o fim do segmento. Um escorrega de lama com cerca de 200m. Já vi escorregas em parques infantis com menos inclinação. Lá fomos num sku controlado e muito cuidadoso. A meio do escorrega "sobe" a noticia que já fecharam o controle e que estão a barrar os atletas. Admito que nesse instante senti alivio. A frustração só chegou depois...

Chego ao posto de controle com 5h56m, 26min após o limite. A prova acabará, com 30km.

Pedem-me que entregue o Chip. Sem mais conversa ou explicação. Retiro e chip e é como se me estivessem a tirar uma parte de mim. Nunca antes tinha tido semelhantes sentimentos por uma quadradinho de plástico...

De repente estou rodeado por centenas de atletas, parece que todo o mundo ficou ali barrado. Muitas caras conhecidas de outras provas. Há muita frustração e indignação no ar com a decisão da organização de fazer cumprir rigorosamente o regulamento. Corre a história de quem tenha sido barrado por segundos e um grupo de espanhóis, especialmente sonoros, descarrega a frustração em vernáculo castelhano. Há quem queira continuar mesmo sem o chip (soube depois que houve quem o tivesse feito), mas depois lá conseguimos serenar um pouco e optar por voltar para o pavilhão. 

O mais irónico de tudo e um dos factos mais frustrantes era que eram 16h, estava Sol e ainda havia muita energia nas pernas. Podiam ter atolado o nosso ego, quebrado as nossas expectativas, privado-nos de ser "finisher" mas chegaríamos ao pavilhão de Miranda pelo nosso pé! Se não era por trilhos seria por alcatrão. Após confirmar com um bombeiro a estrada a seguir lá fomos nós fazer mais 5km e "fechar" o track. Mal começámos a correr uma dezena de outros atletas viram-nos e acompanharam-nos neste segmento final.
A caminho de Miranda sem ego chip.
Estávamos tão bem que ainda demos um voltinha extra em Miranda só para ir subir a famosa rampa final e entrar no pavilhão pela pórtico de chegada. Chegámos mesmo a tempo de ver a elite feminina a chegar e passar cabisbaixo  pela mesa com os sapatinhos "finisher".

No nosso grupo nem todos fomos barrados e ainda ficámos algum tempo à espera das máquinas! Todos os que terminaram o Abutres este ano são elite e têm todo o meu respeito! Parabéns!
E por fim a minha foto favorita: a chegada da grande equipa!
Muito obrigado aos meus companheiros, pelas fotos, pelo filme mas acima de tudo pela companhia, motivação e paciência. E deixei o melhor para o fim! O Pedro e o Miguel para além de irem sempre a puxar ainda conseguiram ter disponibilidade para filmar e tiveram a mestria de montar um video todo catita que aqui partilho.


O balanço final não é, obviamente, muito positivo. Foi sem dúvida uma grande aventura, a mais "extreme" que alguma vez fiz. Adorei os km's onde consegui efectivamente correr. Mas acho que a organização saiu muito mal na fotografia. Tinha tudo para ser uma prova irrepreensível em termos de organização, mas não é aceitável que quase metade dos atletas tenham sido barrados. Não estou a falar de pessoas inexperientes e mal preparadas, vi muitas caras bem conhecidas da modalidade na Srª da Piedade. Com a égide da "segurança" dos atletas acho que as decisões tomadas foram mais no sentido da "segurança" da organização. 

Apesar de, tal como a organização referiu, estar a chover intensamente na Serra à três dias, ficou a sensação que não havia um plano B. O adiamento em duas horas colocou uma pressão enorme nos tempos limite desde logo muito exigentes. 

Depois a alteração no percurso. Devido ao elevado caudal no rio foi necessário alterar a parte final da prova, até aqui a organização esteve muito bem. Mas em vez de encurtar, decidiu acrescentar os km's no início pelas ruas de Miranda. Foram 1,5km a mais como se verificou na distância para todos os abastecimentos. Não é que os 10min tivessem algum impacto na minha prova, mas quem foi desclassificado por segundos tinha razões para se queixar. O segmento das Mestrinhas para a Srª da Piedade nas condições em que se encontrava era demasiado perigoso, sendo que tinha dois pontos estupidamente perigosos. É verdade que estavam pessoas da organização em ambos os pontos, mas acho que eram perfeitamente evitáveis e a prova não perderia a mística sem aquelas duas descidas.

Fiquei com a sensação que a organização só pensou nas elites e no campeonato. Optou por não cancelar a prova e garantiu que a elite chegava para aparecer na TV. O resto do pelotão? Azar. Para o ano há mais e as inscrições irão esgotar ainda mais depressa.

Não resisti e fui olhar para os resultados. O primeiro atleta passou pelas Srª da Piedade com 2h59, o último, obviamente, com 5h30. Ora utilizando a "regra" do dobro do tempo do primeiro, 6h seria um tempo perfeitamente aceitável para se passar no controlo. Mais, o último atleta a chegar à meta fez-lo em 10h16, quase 3h antes do tempo limite para a prova! 

Se volto aos Abutres? Não sei. Talvez num ano de seca. Afinal temos de ser humildes e compreender que terminar os Abutres não é para quem quer. Fiquei chateado com a situação e afinal não é só nos Abutres que há Lousã...

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

E começou a chover...

E começou a chover...

Eu até sou um tipo optimista por natureza. Há até, quem exaspere com a calma com que às vezes encaro os contratempos. Mas nesta última semana começaram a surgir-me umas borboletas na barriga. À medida que tornava a reler relatos e rever videos de edições anteriores, as borboletas cresciam. E hoje começou a chover. E as borboletas transformaram-se em vespas asiáticas gigantes.

É "giro" como os mesmos textos e os mesmos filmes que há um ano atrás me pareciam uma fantástica aventura e um desafio de sonho, surgem agora como quasi-estórias de terror e sofrimento. Não consigo perceber como é que o meu sub-consciente eliminou a lama, as quedas e todas as referências ao trail mais "hard" que os "Hard Trail"...

É como ver o video de apresentação desta 5ª edição: paisagens de sonho, single tracks verdejantes e secos, sol... 

E depois ver o extraordinário video do astrodeckStudio da edição do ano passado: lama, chuva, dureza no seu estado mais puro...

Dizem que os Abutres são a meca do trail em Portugal, se calhar devia ter ido primeiro visitar umas capelas mais pequenas... Agora não há volta a trás... Sábado vou "correr" um dos trails mais duros de Portugal sob condições meteorológicas muito adversas... Tudo para correr bem, portanto.

Não queria terminar sem atribuir culpas, sim porque de certeza que não foi minha! Queria culpar os bloggers e os realizadores por criarem na Internet uma aura de quase magia que fazem esta prova de inscrição quase obrigatória. Depois queria culpar a malta do Esquilos, que com os seus testemunhos criaram em mim um desejo insaciável de ir "correr" este desafio. E por fim, queria culpar a minha filha Mafalda, que no dia 3 de Novembro me acordou a chorar às 4h da manhã e assim me permitiu, efectivamente, inscrever-me!

Queria apenas deixar estas breves linhas para quando, numa futura ocasião, estiver a considerar inscrever-me no Inverno numa prova no limiar das minha capacidades, TOMAR JUÍZO E LEMBRAR-ME DO STRESS EM QUE ESTOU!
Mantra para sábado: "Não vou ser carcaça para os Abutres!"
PS - Será que o meu frontal é suficientemente impermeável???  Bom por outro lado tenho a certeza que vou ficar "curado" das minhas peneiras sobre molhar os pés...

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Adeus 2014...

Truz truz truz... Está ai alguém? Ouvi dizer que isto é um blog de corrida mas posts está quieto... Se calhar já punhas um "trespassasse" na entrada... Pode ser a tua resolução de Ano Novo!



É verdade, mea culpa, nos últimos meses tenho andado muito desleixado. Podia culpar a falta de tempo ou mesmo o facto de não ter participado em nenhuma prova nos últimos meses, mas a verdade é que tenho tido muita preguiça. Eu até começo a escrever, como são testemunho os 3 ou 4 posts que tenho semi escritos, mas depois o momento passa e acabo por desistir e não os terminar.

Mas embora a actividade literária tenha esmorecido na ponta final do ano, a actividade física tem continuado em bom ritmo. Ainda hoje completei mais um dos meus treinos especiais "2/3 Maratona Rise&Shine", o último de 2014. Foram 28km pelas ruas adormecidas de Lisboa com o nascer do sol à beira Tejo. Acordar de madrugada a meio da noite tornou-se uma necessidade para conseguir encaixar estes treinos, e devido à "logística", nunca consegui convencer ninguém a acompanhar-me. Mas até tem sido bom. Dizem que sou o gajo introspectivo e estas horas permitem-me tempo para assentar ideias. Em oposição às corridas em trilhos em que um só cérebro é insuficiente para coordenar toda a actividade e assim evitar testar o principio físico da gravidade.

Tenho continuado a balancear os treinos de estrada com os de trilhos, e embora não tenha participado em provas nos dois últimos meses, fiz dois treinos épicos em Sintra com a malta da "Hora do Esquilo".
Sintra Non Stop - Grande treino com a elite dos "Esquilos"... Um "rolador" com 1150m D+ num ritmo no limiar do RedLine! 
Mula-GuinchoVelho-Peninha
Mas este é o dia dos balanços e dos números e por isso não posso passar ao lado de alguns.

Se 2013 foi o ano da Maratona, 2014 foi o ano da Ultra-Maratona! Na realidade foram 2 oficiais e mais 1 não oficial, sem contar com a repetição da Maratona de estrada em Lisboa. Mas se tivesse de escolher uma palavra para 2014 teria de ser "Trail". Depois de anos a desdenhar o pessoal que largava a estrada para se dedicar aos trilhos, também eu caí no engodo e fiquei agarrado. Muito graças às companhias. Perdi a conta às vezes que acordei às 5:25 para ir correr para Monsanto com uns "loucos" e até arranjei um outro louco para me acompanhar das minhas ultra loucuras. Continuo a gostar de correr em alcatrão e mais de metade dos km's de 2014 foram feitos com sapatilhas de estrada.

Mas chega de conversa e vamos lá aos números!

Corridas: 225
Distância: 2898 km (1718 em estrada, 1180 em trilhos)
Tempo: 278h 
Ganho de elevação: 46750m

Quando olho para os "objectivos" que escrevi no início do blog quase me dá vontade de rir. Foram mais 1000km que em 2013 e se o ano tivesse mais uma semana alcançava a barreira dos 3000. Foram em média quase 5 treinos por semana a que ainda é preciso juntar as 26 aulas de Spinning e outras tantas de Pilates. Foi sem dúvida o ano mais activo de sempre e os resultados surgiram, não só na conquistas das distâncias mas também com novos RP nos 10km, Meia e Maratona.

Mais uma vez contei com a paciência e o apoio da minha linda esposa. Embora tente sempre minimizar o impacto na vida familiar é ela a minha pedra angular. Obrigado!

A todos um grande 2015 com saúde e cheio de boas corridas! Termino com o resumo do último treino de 2014 e um convite para me acompanhar num próximo "Lisboa Rise and Shine!".

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Corrida do Aeroporto 2014 - 19 Outubro 2014

Esta é uma das minhas provas de 10km favoritas e, a par da Corrida do Tejo, uma que tento nunca falhar apesar do meu recente interesse por outro tipo de desafios.

Mais do que uma corrida é um momento de socialização. Como referi no post do ano passado, não só trabalho no aeroporto como o ginásio que dá apoio ao evento é o ginásio que frequento. Desde modo para além da malta do trabalho que nos últimos tempos tenho "desencaminhado", nesta corrida o número de pessoas conhecidas é enorme e é sempre uma grande festa.

Outra fantástica característica desta prova, que se está a tornar habitual nas corridas organizadas pela HMS, é que tem uma grande componente familiar. Desde as corridas para os mais pequenos como a disponibilização de uma área vedada com as mais variadas actividades para as crianças ficarem enquanto os mais crescidos faziam a sua prova. Obviamente que inscrevi a Margarida e desta vez nem tive de falsear a data de nascimento uma vez que já é uma "Bambi" de pleno direito!
A Bambi em grande estilo! (Foto: Gustavo Figueiredo Photography)
Infelizmente o pai da atleta é um néscio e meteu na cabeça que as provas das crianças eram às 9h30. Afinal eram às 9h15 e quando chegámos ao Terminal de Carga já os bambis estavam alinhados na partida... Com uma grande sensação de dejavu lá fomos a correr para a partida e depois de explicar a situação a um simpático elemento da organização fomos correr com os mais crescidos. Assim, a minha bambi correu o dobro da distancia devida, num grupo de atletas mais crescidos e conseguiu não ficar em último!
Muito envergonhada a receber o seu prémio. (Foto: Gustavo Figueiredo Photography)
Passado o stress inicial da corrida da Margarida era altura de começar a pensar na minha prova. O meu objectivo era simples: diverti-me! Depois da loucura que foi a Corrida do Tejo, queria fazer uma prova sem sofrimento e apenas pelo prazer de correr com amigos. Juntei-me ao Duarte e ao Carlos e combinámos correr juntos para um tempo próximo dos 50min.

Num ápice estavam a dar a partida e lá seguimos nós todos contentes. O 1ºkm foi o mais lento de toda a prova. A confusão inicial habitual e o facto de começarmos logo a subir não estarão isentos de culpa. Mas depois entrámos no ritmo e fomos sempre muito certinhos, ligeiramente mais rápido do que os 5'/km. Ligeiramente mais rápidos nas descidas, e mais lentos nas subidas. 
Os atletas! (e um gajo de azul)
Este ano o percurso era um pouco diferente mas mantinha os pontos de interesse como a passagem na Pista Moniz Pereira, no Parque Urbano da Alta de Lisboa com a sua ponte de madeira e pelo Parque das Conchas. A maior diferença foi a retirada das voltinhas pelos caminhos de terra da Quinta das Conchas e para compensar uma ida pela nova avenida até quase à 2ªCircular. Eu acho que assim ficou muito melhor. Aquelas subidas íngremes em terra batida pareciam um pouco fora de contexto numa prova de 10km de estrada. Mesmo assim a subida acumulada aumentou ligeiramente em relação ao ano passado. Em relação ao percurso o único ponto mais fraco é mesmo a passagem pela rua que dá acesso à Quinta das Conchas, muito inclinada e em empedrado o que a torna liminarmente perigosa. O percurso desta prova não é propriamente plano, mas como o meu amigo Duarte diz: quando corremos 1'/km acima das nossas capacidades toda a subida parece uma descida com uma inclinação esquisita.

Desta vez decidi levar a câmara, fica aqui o registo muito pessoal da Corrida do Aeroporto 2014.

Fui sempre a chagar para mantermos o ritmo e chegámos ao 9ºkm com uma folga bastante confortável para o nosso objectivo. O problema era que o último km era sempre a subir e quando o relógio apitou para os 10km ainda estávamos a uns bons 200m da meta. Para mim, este foi o único ponto menos bom de uma organização irrepreensível (na altura ainda dei o benefício da dúvida pois o relógio tem a precisão que se sabe, mas depois outros atletas queixaram-se do mesmo e já em casa verifiquei que a distância foi mesmo 10,2km).

Nos últimos metros o "Coração de Cavalo" (aka Duarte) larga no seu sprint louco e mesmo com o relógio a marcar uma velocidade instantânea abaixo dos 3'/km não o consigo acompanhar. No entanto, desta vez, espera por mim reduz a velocidade e passamos a meta juntos com um tempo de 49m28s. Pouco tempo depois chega o Carlos que tinha ficado ligeiramente para trás.
Acabadinhos de chegar! Jorge, fizeste quanto tempo? :P
E estava feita a prova. Recolhemos o íman, o saco com as águas e o gelado e ficámos mais um pouco para ouvir o sorteio das duas viagens. Ainda deu para conhecer o Manuel Nunes que após correr uma Maratona foi ao Aeroporto esticar as pernas. Foi pena a tshirt este ano não ser, como habitualmente, da Asics e de ser completamente branca na parte da frente mas a verdade é que o meu maior problema com a tshirt é: onde raios é que eu vou guardar tanta tshirt...
E numa prova familiar não podia faltar a foto de família!
Foi uma manhã muito bem passada mas no final fiquei com aquela sensação de ter copiado num exame... De me ter posto à prova e não me ter esforçado...

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Rock'n'Roll Maratona de Lisboa 2014 - Video

Enquanto o relato completo não sai, (até porque pelos vistos só tenho até Janeiro para o terminar) fica aqui mais uma tentativa de aspirante a Tarantino.


E caso alguém fique curioso porque passa o video dos 24km para os 41km existem dois motivos. Primeiro devido a um "problema técnico" passei a gravar o bolso dos meus calções e a apontar a máquina desligada à paisagem. E segundo porque entre os 35km e os 40km a máquina passou a pesar 999kg e pegar nela exigia uma quantidade de energia que não estava disponível.

domingo, 5 de outubro de 2014

Maratona "bi"-Finisher!

E já está!

Hoje dei o golpe à Srª D. Maratona!
Dedicada à minha mais que tudo...
Levei a preparação de forma leviana. Graças a um dorsal patrocinado fui a Cascais. E pumbas, não só terminei a prova, sempre a correr, super controlado e ainda assim saiu um tempo melhor que o ano passado!

Claro que este ano estavam menos uns 300ºC que o ano passado e tive duas lebres de luxo que me levaram até aos 30km nos calcanhares dos Quénianos... Ok, eram os calcanhares do marca passo das 3h45  e aos 30km foram à vidinha deles porque tinham muito mais pedalada do que eu. Mas de qualquer maneira foi graças a eles que fiz este tempo. O meu muito obrigado ao Pedro P. e ao João S. são os maiores.
Os grandes atletas e eu.
Eventualmente sou capaz de fazer um relato mais exaustivo...

O comprovativo que não apanhei o comboio.
E um agradecimento ao patrocinador.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

A Vida, o Blog e a Maratona

Manter um blog é uma tarefa que consome muito tempo, principalmente para quem a vocação para escrever é algo duvidosa. Era algo que eu sabia desde praticamente o dia 1 do "Só mais um blog de Corrida" mas que se tornou enorme nos últimos tempos.

Não, isto não é um post de despedida, é assim mais um post de redimição. Pela primeira vez não consegui terminar um post em tempo útil e, associado ao facto de não ter participado em provas durante mais de um mês, levou a uma ausência demasiado prolongada.

A  verdade é que o tempo disponível diminuiu consideravelmente e entre treinar ou escrever acho que compreendem qual foi a opção. Embora as idas a Monsanto à Hora do Esquilo se tenham tornado mais difíceis, a verdade é que tenho corrido bastante, tendo inclusive batido em Agosto o meu record de km num único mês.

Alguns dos eventos a que fui mereciam posts para a posteridade mas já interiorizei que não vai acontecer.

Irá ficar por registar os épicos treinos na noite de Sintra com a malta do Trail da Salamandra e como fiz, já para lá da meia noite, o trilho das pontes sozinho depois de ter perdido contacto com o grupo da frente e não saber se vinha alguém atrás, certamente uma história para mais tarde recordar.
Trail da Salamandra LX - Mas que grande estreia na Salamandra! 26km em grande ritmo!
Ou a "Corrida à Sexta" por terras Algarvias onde fiz o Trail de Sta Catarina Fonte do Bispo. Mais uma corrida nocturna com malta muito divertida.
Corridas às Sextas - Trail de Sta Catarina Fonte do Bispo. 12km, 500m D+ a ritmo alucinante. Muito bom!
Também irá ficar por contar o dia em que depois do trabalho convenci a malta a ir para Monsanto correr pelos trilhos (achei o que percurso "Trepador" era um bom cartão de visita). E como ali algures a meio da subida do cozido cheguei a temer pela minha integridade física tal era o estado de espírito dos meus convivas.
Trail EO. Um treino diferente mas com muito bom espírito! 
Ou ainda o meu mini-trail pessoal na Madeira e como fiquei sequioso de correr "à séria" pelas veredas da ilha. E como ao regressar ao continente fui logo pesquisar o MIUT e depois de ler sobre o assunto achei que era "Trail" a mais para a minha camioneta.
O "meu urban trail no Funchal". O bichicho de correr pela Madeira cá ficou...
A palavra "MARATONA" não está no titulo deste post apenas para chamar à atenção. De facto no próximo domingo irei estar em Cascais para "tentar" completar aquela que será a minha segunda Maratona de estrada. E porque "tentar", porque ao contrário do ano passado, em que durante 4 meses vivi, sonhei, treinei, respirei Maratona, este ano a "preparação" não existiu.

Ponderei seriamente em escrever um post apenas sobre a minha "preparação", iria chamar-lhe "Como NÃO preparar uma Maratona" mas depois achei que bastaria colocar aqui neste os tópicos e assim, ter uma justificação para quando a Dª. Maratona não fizer prisioneiros...

Ponto 1: Não fazer um plano de treinos. 
Uma das partes mais exigentes da preparação é ter que seguir um plano de treino. Ter sempre aquela dor na consciência ao faltar a um treino ou ter que se levantar às 5 da manhã porque o plano diz para ir correr um longo. O melhor é mesmo nem fazer plano e correr o que bem me apetece. Correr com os amigos, correr em trilhos, correr quando posso e como me dá prazer.

Ponto 2: Não fazer treinos de séries.
Isso de correr séries doi muito. Só de pensar que tenho de ir correr séries dá-me logo uma soneira que nem o despertador me acorda. O melhor é mesmo ir correr com a malta em trilhos que é muito mais divertido.

Ponto 3: Não fazer treinos longos.
Longos exigem muito tempo, são uma seca e doem muito. Só de pensar que tenho de me levantar às 5h da manhã faz-me logo esquecer de ligar o despertador. Correr um par de horas por Monsanto deve fazer o mesmo efeito, certo? Para descargo de consciência ir correr 32km duas semanas antes só para ter a certeza que não me fico pelo Cais do Sodré.

Ponto 4: Não dizer a ninguém que vai correr outra Maratona.
Com uma preparação deste gabarito o melhor é nem dizer a ninguém para não me pressionar. Ao contrário do ano passado em que até o familiar do amigo do vizinho me tinha ouvido falar da Maratona, este ano, praticamente ninguém sabia. Até à Inês só lhe disse há poucas semanas o que correu muito bem! A minha esposa é um espectáculo e não se importou nada de ter de ficar com as duas pestes o dia inteiro enquanto eu me vou escalfar.

Ponto 5: Apesar dos pontos anteriores, planear um ritmo para a Maratona de forma a melhorar o tempo do ano passado em que se preparou durante 4 meses seguindo um rigoroso plano de treinos.
Porquê não sonhar? Se consigo manter esse ritmo confortavelmente basta multiplicar por 42, certo?

E pronto, termino este post com a promessa que no Domingo cá voltarei para contar o resultado da minha não preparação.

Vejam o comic completo em aqui. Vale mesmo a pena!