sábado, 12 de outubro de 2013

Rock'n'Roll Maratona de Lisboa

Domingo corri a minha primeira Maratona.

Acordei antes do despertador e fiquei à espera que tocasse para finalmente me poder levantar. Era finalmente o dia. O dia com que andava a ansiar há meses tinha finalmente chegado.

Mal me levantei tive logo de ir WC e pensei: Porreiro, assim fica a questão já resolvida! Depois de tomar o pequeno almoço oficial pré-prova, deu-me vontade outra vez: Hum, antes agora do que na hora da partida! Despachei-me em modo ultra silencioso para não acordar o resto da casa e depois de "plastificar" o bilhete de comboio (mais sobre o assunto nas notas finais...) mesmo antes de sair de casa, nova investida à casa de banho: MAU, intestinos vejam lá se atinam! Acho que perceberam a mensagem e durante toda a prova estive impecável nessa parte.

Devido à partida ser em Cascais e eu morar a uma distância andável da Estação da CP de Oeiras, tinha a logística simplificada e cheguei bem cedo à zona da partida.

Ainda ensonado já pronto para a partida!
Ainda estavam poucos atletas. Andei um pouco a ver se encontrava alguém conhecido e ia ouvindo as conversas, havia muita gente a correr a distância pela primeira vez. Tive o prazer de conhecer a Isa e o Vitor que estavam com o João. Mais umas voltas e finalmente encontrei o meu amigo Fernando que também se ia estrear na Maratona. Decidimos ir fazer o resto da espera dentro do "garrafão" o que nos permitiu sair relativamente à frente.

Com o meu amigo Fernando.
Finalmente eram 10h05, era a hora, o culminar de 4 meses de dedicação iam finalmente ser testados. Acho que pela primeira vez em provas comecei a correr ao meu ritmo antes do pórtico da partida e não tive de fazer qualquer zigzag. Tal como o video, também passei por 8 estados:

1 - Excitação ( 0 -15 km)


Os primeiros km foram uma alegria. O pelotão ia compacto mas ia sempre no meu ritmo. O plano era fazer os primeiros km um pouco acima dos 5min/km para aquecer e depois passar para um pouco abaixo a partir do km 5. Pela primeira vez levei um segundo telemóvel só para tirar fotos, afinal tenho um blog para manter! :)
Epá isto de tirar fotos a correr é divertido!
Passei pelo Zé Luís, outro amigo com quem treino habitualmente, que já tem bastante experiência em Maratonas e obviamente tive que tirar uma foto. Passei a bandeira das 3h45 e poucos metros mais à frente sou ultrapassado a velocidade supersónica pela bandeira das 3h30... hum...acho que o pacer das 3h30 estava a dormir na partida e depois acelerou para recuperar.

O Zé Luís a espalhar o seu charme.
Ao passar a bandeira das 3h45, haviam um autêntico "Muro" de atletas a ultrapassar.
Havia bastante gente nas ruas e com os músculos carregados de glicogénio nem dei pela subida até ao casino. Esta era uma parte do percurso que quase podia fazer de olhos fechados, tantas foram as vezes que por aqui passei nos últimos meses. Os km iam passando sentia-me muito bem e estava desejoso de chegar a Oeiras, pois sabia que ia ter a minha família à espera. Continuava super excitado e tirava fotos.

Deixa lá ver se vêm muitos atletas atrás...
E mais uma foto que preciso de muitas para o Blog.
Olá casa! (não é a minha casa mas fica perto)
Finalmente chegava a Oeiras e exactamente onde tínhamos combinado estavam lá a Inês(com a Mafalda) a Margarida e os meus pais que vieram de propósito do Alentejo para me verem. Obrigado Pais!

Passagem em Oeiras para o apoio da Família.
Fui planeando o que faria quando passasse pela Inês, e felizmente o meu pai apanhou em filme. :)

video

2 - Negação (15km - 22km)


Após as emoções de passar por Oeiras foi altura de retornar à Marginal e voltar à prova. Lembro-me de olhar para o relógio e ver uma pulsação alta, 10 bpm acima do que seria de esperar face ao ritmo que levava. "Se calhar é por causa da subida.". Uns metros mais à frente os bpm continuam altos "Deve ser da adrenalina de estar em prova...". Em Paço de Arcos "O Relógio deve estar com problemas, não me sinto assim tão cansado...". Obviamente que o relógio estava certo, estava a desgastar-me muito mais depressa que nos treinos. Nunca me senti muito incomodado pelo calor, mas a verdade é que deve ter sido esse o grande culpado. Ao analisar os dados já em casa verifiquei que das quase 4 horas que levei a percorrer os 42,195km, em 3h19 as pulsações estiveram na zona 4 (Very Hard)...

O sorriso ficou em Oeiras...
 No km18 sou ultrapassado por um atleta cuja cara me parece familiar. Acelero um pouco para me colocar ao seu lado e reparo na sapatilhas amarelas. Era o Nuno Ferreira. Meti conversa e lá fomos alguns km's na conversa.

Nuno, deixa-me tirar-nos uma foto que é para o Blog.
Chegamos finalmente à zona do passeio de Caxias. Para mim este foi um dos pontos fortes da
organização. Muita gente não sabia deste "desvio", e o factor surpresa ajudou à experiência. Não só evitou uma subida muito diíicil como proporcionou uma vista sobre o rio fenomenal. A organização capitalizou ainda mais o cenário colocando voluntários com as bandeiras dos países dos atletas, o que certamente muito agradou aos atletas internacionais.

Passagem pela Cruz Quebrada, muito fixe, dava para sorrir outra vez.
O enquadramento perfeito, o Tejo, a Ponte a Cidade, e as bandeiras.
Quando voltámos à Marginal disse ao Nuno para seguir porque o ritmo era demasiado forte para mim. Havíamos de nos cruzar mais duas vezes. Estes km's foram os mais rápidos de toda a prova, abaixo do 5min/km. Pouco depois estava em Algés a passar o pórtico a indicar a metade do percurso. Uma das coisas que aprendi nesta prova é que metade de uma Maratona não é uma Meia-Maratona (a segunda metade são para aí umas três meias...). "Estou muito bem não há problema!"

Hoje é o meu dia! Meia já está!
A última foto tirada com o telemóvel...

3 - Choque (22km - 30km)


A partir daqui começou a custar. O telemóvel foi para o bolso para nunca mais sair. O percurso entre Algés e o Cais do Sodré parecia nunca mais acabar. O ritmo ia caindo e cada km levava mais tempo a fazer que o anterior. Quase desde o início que se viam atletas a andar, mas nesta fase eram às dezenas. A única coisa que me fazia manter o passo de corrida era saber que o meu pai estaria no Cais à minha espera e tinha combinado uma hora e se andasse não ia conseguir cumprir...

Passagem no Cais, está tudo bem Pai! (só me doi tudo...)

4 - Desespero (30km - 34km)


Após o km30 entramos na volta à baixa, para mim, a parte menos conseguida do percurso. Começando pelo empedrado infernal na Ribeira das Naus, mas quem é que teve a ideia de colocar calhaus pontiagudos a fazer de estrada? Era toda a gente a utilizar os 20cm de pedra lisa entre a estrada e o passeio. Depois o quase total desinteresse das pessoas. Pouca gente a puxar pelos atletas, mais interessados em conseguir passar a estrada. Na rua da Prata fui inclusivamente albarroado por um par de homens que decidiram passar a rua de costas para o sentido da corrida...

Já tudo doía, as pulsações estavam altíssimas, quase a entrar na zona 5 (Maximal), e  continuava a ultrapassar atletas que andavam o que era muito desmotivador. Consegui resistir até perto dos 34km, mas aí, no abastecimento tive de andar. Já não havia energia para hidratar e correr simultaneamente.

5 - Solidão (34km - 37,4km)


Entro depois naquilo que denominei o "Deserto de Xabregas", outro ponto fraco do percurso. Uma zona feia e quase deserta de pessoas. Com todo este sofrimento começo a imaginar os pensamentos dos atletas estrangeiros:"Possibly the World's most gorgeous course..yeah right...". Continuo a minha estratégia de andar nos abastecimentos e manter uma corrida no entremeio. E assim sigo até ao km 37,5...

6 - O "Muro" (37,4km - 39km)


Não, não bati no muro. Ou pelo menos acho que não bati. Havia muito cansaço, as pernas estavam muito doridas, mas nunca me senti completamente esgotado. Mas sem qualquer aviso tenho uma cãimbra na perna esquerda. É uma dor tão forte e inesperada que nem consigo continuar a andar, vou para a berma e sento-me no chão. Mal me sento penso: "Porra, e agora como me vou levantar...". Fico ali no chão a tentar alongar o músculo. Parece que fico ali uma eternidade mas foram menos de 2 minutos. Vejo vários atletas passar, inclusivamente a bandeira das 3h45.

Não sei muito bem como mas consigo levantar-me e verifico que é possível andar. Os 1,5km seguintes são feitos a andar. Nunca cheguei a pensar em desistir mas o sofrimento era muito e lembro-me de dizer para mim o habitual "Mas porque me meto nestas coisas... claramente menosprezei a distância...". Ao longe vejo a placa dos 39km.

7 - Convicção (39km - 41km)


"Mas sou um homem ou um rato? Não estive quatro meses a treinar para me arrastar até à meta. Só faltam 3km. Essa distância nem chega a ser um aquecimento. Vou correr!"
E corri, e senti-me bem outra vez! Provavelmente poderia ter recomeçado a correr mais cedo mas tinha medo que a cãimbra voltasse. Ao km 40 vejo o contador do tempo, 3h48. O sub 4h era possível! Nova onda de motivação que coincide com a entrada no Parque das Nações.

Esquerda, direita, esquerda, direita... Sou um atleta, vou conseguir!
Há novamente gente na rua e ao contrário da baixa estão a puxar pelos atletas. Já tinha ouvido uns "Força Rui" pelo caminho, mas aqui perdi a conta. Ia sempre agradecendo com um leve abano de braço porque a pouco energia restante estava dedicada a colocar uma perna à frente da outra.

8 - Exaltação (41km - 42,195km)


Quando entro na avenida D JoãoII sinto pela primeira vez que vou conseguir chegar ao fim. O público forma um corredor contínuo ao longo da avenida e a sensação é incrivel. Um grupo de camisolas laranja dos R4F grita exuberantemente e quando reparam na minha tshirt começam a gritar "Força Rui" (são claramente os maiores! Obrigado malta dos R4F!), nesse mesmo instante vejo novamente o meu pai a tirar fotos, vêm lágrimas aos olhos e começo a soluçar. Preciso de mais de 300m para controlar a respiração.

Estou (glup) bem (glup) Obrigado (glup) Pai! (glup)
Curva, placa dos 42km, só falta 195m. Outra curva, encalho no empedrado com lombas (mas quem é que faz uma recta da meta de uma maratona num empedrado com lombas...). Não vejo a família que grita por mim mas vejo a meta. O placar mostra 3h58 vou conseguir, e já está, corri uma MARATONA.

CONSEGUI!!!!!!
Tinha planeado fazer montes de coisas quando passa-se a meta: Levantar os braços e agradecer poder correr, Gritar e partilhar a minha alegria, Beijar a aliança para dedicar à minha mulher. Mas a clareza de espírito não era muita e apenas parei o relógio e andei.


Lembro-me vagamente de me entregarem a medalha e darem os parabéns. De me obrigarem a parar para tirar uma foto mas tudo o que eu queria era 1 m2 de chão para me poder sentar. Vi o meu pai do lado de fora, recolhi o saco e o gelado e apressei-me a sair.


Chão... Descanso...
Finalmente o resto da família juntou-se e pude celebrar com eles. Foi muito bom tê-los comigo neste momento. Ao longo destes meses de preparação foram eles os mais prejudicados com esta minha "obssessão". O meu muito obrigado.

Obrigado Amor! ;)
Notas Finais:

Como os comentadores políticos também tenho notas finais.

1) Corri a maratona em 3h57m35s, sem consumir um único gel. O único alimento sólido foram cubinhos de marmelada.

2) 10h é uma hora absurda para começar uma maratona em Portugal no Início de Outubro. Mas só quando vi a gravação da tv percebi o porque dos 5 min, e a Meia 10 min depois. Será que valeu a pena sacrificar a experiencia dos atletas pelo "directo"?

3) A questão de ter de "comprar" um cartão para poder ter comboio "grátis" chateou-me, principalmente depois de não colocarem nada sobre o assunto nas instruções finais, e mesmo quando questionados especificamente por email nada referirem sobre a necessidade do cartão. No regresso já no metro estive a falar com uns Noruegueses que estavam muito confusos com a situação e só perguntavam se o transporte não era grátis.

4) No geral a organização esteve muito bem. Os abastecimentos eram bons e os voluntários muito simpáticos (poderia ter havido mais abastecimentos de bebida energética).

5) O "desvio" na Cruz Quebrada foi o ponto alto do percurso, o "deserto" de xabregas o pior.

A pose para a posteridade!


16 comentários:

  1. Parabéns Rui, Belo relato, achei muito legar ter dividido em km´s conforme a dificuldade e os sentimentos em cada um, só posso imaginar a alegria ter os pais ai pra compartilhar essa alegria, no video me emocionei com os gritos da pequena. Que exemplo maravilhoso está deixando para ela, parabéns por ter completado a prova, minha admiração e carinho.
    Bons treinos
    Ju

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    1. Obrigado Ju! Achei tanta piada ao video e como se adequava à minha prova que decidi fazer uma brincadeira. A minha mulher disse para colocar em legenda do video que os gritos eram da Margarida mas acho que nem é preciso ;)
      Boas corridas, bjnhs.

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  2. Muitos parabéns!!!! Completar em menos de 4h foi brilhante!
    Tenho a impressão que a pequenita vai com toda a certeza seguir os passos do pai, o quanto ela gritou PAI!!
    Deve ser algo reconfortante quando estamos numa prova dessa natureza e ouvir a voz daqueles que mais amamos nos darem apoio!! :)

    Mais uma vez Parabéns! Grande prova Rui!
    Beijinhos e boa recuperação!

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    1. Obrigado Marta! A passagem em Oeiras foi mesmo muito especial! Tento sempre leva-la comigo para as provas, não só para o apoio moral mas para que tenha contacto com o desporto e a actividade física.
      Espero que o triatlo esteja a correr bem ;) Bjnhs.

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  3. Belo relato!

    Parabéns mais um vez!

    E também eu, na minha estreia em Dezembro, pensava que fazia sei lá o quê na meta mas afinal a sensação foi tão forte que fiquei sem reacção! :)

    Um abraço e força para mais

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    1. Obrigado João. Pensava que ia ter mais presença de espirito na chegada mas o cansaço era tanto que não dei para nada. Fica para a 2ª ;)
      Boas corridas! Abraço.

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  4. Parabéns! Excelente prova e relato espectacular! Tive pena de não participar, mas acho que era muito cedo para mim... Tenho um desafio a propor-te nas próximas semana... :) Vai descansando para um "ultra" desafio... ;)

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    1. Obrigado Sílvio! Com as tuas performances nas meias e com um plano de treinos adequado acho que será perfeitamente viável num futuro próximo! Nos próximos meses tenho de me manter mais por perto, mas vou tentar ir a uns "trail". Vais à corrida do Monge?

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  5. A Maratona é do caraças não é? Mas é por isso que tem tanto valor...e tu conseguiste. Parabéns por isso e por este excelente relato, que nos leva a correr contigo nesta aventura.
    Grande abraço colega maratonista.

    P.s. Qual é a próxima? :)

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    1. Carlos, felizmente o tempo tende a ocultar aqueles detalhes mais sombrios e hoje já nem me "lembro" porque pensei "Nunca mais me meto noutra" lá pelo 38km... :) Por questões digamos "logísticas" (a Inês também lê o blog...) a reposta oficial é: prognósticos só depois da Mafalda!
      Um abraço!

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  6. Rui, parabéns pela grande prova que fizeste!
    E pelo bom relato.
    Também foi um prazer conhecer-te.

    Abraço

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    1. Obrigado Vitor! Já fui cuscar o teu relato mas também a fazer comentários sou uma lesma...
      Até há próxima prova! Um abraço.

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  7. Parabéns Rui! A primeira está feita, com luta e convicção, como deve ser!
    Sub-4h é um óptimo tempo, mas melhor as memórias que certamente ficam.
    Bjs e boa recuperação

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    1. Obrigado Rute. Embora não tenha corrido exactamente como planeado ficou uma grande história para contar!
      Boas corridas e pode ser que nos vejamos num trail por ai... Bjnhs.

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  8. Respostas
    1. Obrigado! E já estou a seguir o teu blog!
      Espero que voltes rápido às corridas.
      Um abraço.

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